por Luca Lima
As autoras Janet Hardy, educadora sexual, e Dorothy “Dossie” Easton, terapeuta familiar, colaboram em escritas sobre aspectos de dissidências relacionais desde 1997, tendo escrito mais de 5 livros juntas sobre o tema. Em seu livro “Ética do amor livre”, as autoras se debruçam na escrita de um guia didático e de fácil leitura, sobre práticas relacionais contra-hegemônicas e alguns cenários que qualquer pessoa que desafie as normas da monogamia pode encontrar pelo caminho. As autoras identificam essas pessoas como promíscuas. Não no sentido comum de promiscuidade, mas sim uma característica que reflete a disponibilidade de alguém ao pensar o ato de se relacionar com outra pessoa fora das normas socialmente impostas e reproduzidas.
No capítulo “Habilidades libidinosas”, Hardy & Easton discorrem sobre possíveis ferramentas para o que chamam de uma promiscuidade bem sucedida, uma forma ética de construir relações afetivo-sexuais com diferentes pessoas parceiras tendo em mente o respeito entre as partes envolvidas e o diálogo constante entre as partes. Seja em um relacionamento monogâmico, aberto ou não-monogâmico (seja qual for o formato), é necessário que a comunicação esteja bem estabelecida e que todas as partes envolvidas estejam decidindo seguir o caminho de explorar a intimidade por vontade própria, não a desejo e vontade de outrem.
As autoras seguem o texto trazendo um pouco sobre cada ferramenta, elaborando acerca de técnicas de comunicação para resolução de conflitos, a necessidade de honestidade emocional e expressão de afeto(s), como estabelecer limites e a importância de respeitá-los, planejamento de tempo e afazeres e desejos, levando em conta as partes envolvidas na relação. Para uma pessoa, um simples gesto de abraço pode ser fundamental para significar a reafirmação de afeto e segurança em uma relação, enquanto para outras, talvez estabelecer um dia fixo durante a semana seja importante para firmar um compromisso. Todos esses aspectos precisam ser levados em consideração ao se pensar na manutenção de afetos e das relações criadas, como também quais acordos precisam ser criados ao longo do caminho – tendo ciência de que eles podem ser transformados ou deixar de existir, caso seja decidido assim pelas partes envolvidas.
Um ponto importante, e que não é tão bem explorado no texto, são os marcadores sociais de diferença, sendo mencionados brevemente como algo a ser observado no ato de se relacionar. Marcadores de raça, gênero, sexualidade e território estarão presentes em todas as relações estabelecidas, com suas características e vulnerabilizações sociais, atravessando constantemente as dinâmicas de se relacionar com outra pessoa. Vivemos em uma sociedade ocidentalizada, branca, patriarcal e cisheteronormativa, portanto devemos levar em consideração as opressões vividas e reproduzidas em nossas relações afetivas.
Hardy & Easton trazem de forma didática e acessível uma discussão complexa, porém necessária, para se discutir diferentes formas de pensar as nossas relações. E, mesmo que instiguem a pessoa leitora a refletir sobre essas possibilidades, reforçam para todas as pessoas, sejam elas monogâmicas ou não, a necessidade de uma ética afetiva ao nos relacionarmos.
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Lucas Renan Ferreira Lima – Aluno Colaborador da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea
Psicólogo clínico e social formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e instrutor de Kemetic Yoga pela instituição Yoga Skills: School of Kemetic Yoga (Chicago/USA). Pesquisador independente de relações étnico-raciais, racismo, masculinidades negras e saúde mental a partir de uma visão africano-diaspórica direcionada. Atualmente atuando com direitos humanos e violência de Estado em diálogo com a política de segurança pública.
Referências
HARDY, Janet & EASTON, Dorothy. Habilidades Libidinosas. In: HARDY, Janet & EASTON, Dorothy. Ética do Amor Livre: Guia Prático Para Poliamor, Relacionamentos Abertos e Outras Liberdades Afetivas. São Paulo: Editora Elefante, 2020, p.109-118.
