Em um dos seus TED Talks mais famosos – e a partir do qual eu inicio essa resenha – Esther Perel faz um recorte contextual e histórico importante sobre como o casamento se moldou na sociedade ao longo do tempo, passando de apenas um acordo econômico, facilitador de herança e sucessão, para se tornar um local cheio de expectativas e papeis a serem executados. Como ela cita, queremos cada vez mais que “nosso parceiro seja nosso melhor amigo, confidente, amante apaixonado (…) queremos que uma única pessoa nos dê o que antes uma comunidade inteira nos oferecia”. Seu argumento principal é de que, numa sociedade cada vez mais individualista, as pessoas deixaram de buscar outros contextos relacionais e diversos para satisfazer suas necessidades, e passaram a condensar tudo isso em apenas uma pessoa.
A partir desse novo lugar que as relações amorosas passaram a ocupar, criou-se um peso muito grande diante do que os casais representam, sobre o que eles devem ser e, mais ainda, como devem ser. É como se criássemos um ideal a ser perseguido e conquistado, o que pode gerar muito sofrimento nessas relações. Quando penso nas ideias que Perel propõe, percebo como muitas delas se aproximam do que o construcionismo social nos instiga a refletir.
Enquanto terapeutas, é fundamental estarmos atentos aos discursos macrossociais que atravessam os sofrimentos de nossos pacientes. Quando as pessoas nos contam suas histórias, mesmo sendo únicas, elas carregam valores, ideias e a cultura local de onde aquelas situações se passaram, ou seja,
“toda ação acontece em contextos culturais já repletos de relacionamentos e sentidos, nos quais as ‘coisas’ já foram previamente nomeadas e interpretadas de diferentes maneiras” (Martins et al., 2015, p.6)
Então, com as reflexões do vídeo e da postura pós-moderna que o construcionismo social me convida a estar, algumas perguntas que me surgem são: como os aprendizados e valores carregados sobre o que é ser um casal atravessam essa história? Se pensássemos em outra configuração de casamento, essa questão ainda seria um problema? Dentro desses aprendizados e valores, quais deles fazem sentido para a pessoa perpetuar e quais, quando ela toma consciência, talvez estejam diferentes do que ela gostaria de experienciar numa relação? Quais outras questões atravessam esse problema, para além de expectativas sobre um casamento (raça, gênero, classe social)?
Com esse peso num casamento, há pouco ou nenhum espaço para as pessoas criarem suas próprias e melhores formas de se relacionar, o que diminui as possibilidades de espaços para outras relações (de cunho familiar, de amizade, trabalho etc., por exemplo) emergirem e ampliarem os contextos em que as pessoas buscam cuidar de suas necessidades.
Nesse sentido, então, cabe a nós terapeutas instigarmos nossos clientes a pensarem também sobre essas questões, para que alternativas possíveis de relacionamento, casamento e casal possam ser criadas, ou mesmo para que as pessoas estejam em suas relações mais conscientes do porquê desejam o que desejam, como e onde aprenderam isso, quais os efeitos de se relacionar de determinadas formas, e construam mais autonomia em suas escolhas.
Esther Perel é uma psicoterapeuta nascida e criada na Bélgica, e atualmente também uma cidadã estadunidense. Ela ficou mundialmente conhecida por seus livros, palestras, blog e podcasts. Seu principal tema de exploração e estudo são casais, erotismo e relações familiares.
Referências
Vídeo YouTube – Esther Perel: O segredo do desejo em um relacionamento duradouro (https://www.youtube.com/watch?v=sa0RUmGTCYY)
Martins, P. P. S. et al. A Teoria do Manejo Coordenado do Sentido na pesquisa psicológica. Arquivos Brasileiros de Psicologia, Rio de Janeiro, v. 67, n. 2, p. 3-18, 2015.
Letícia Oliveira Rodrigues
Aluna Colaboradora da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea.
Psicóloga clínica há 7 anos, formada pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia), possui Certificado Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas (ICCP) pelo INTERFACI, e formações de base teórica pós-moderna e construcionista social.
