Texto baseado no artigo “Reconstrução de Relacionamento Pós-Infidelidade: será esta uma alternativa possível?”, de Marli Kath Sattler, publicado em 2021 na revista Pensando Famílias.
Por Arthur Alves de Oliveira Silva
O imaginário social acerca da infidelidade é imenso e diverso. Desde temas de novela até músicas no melhor estilo sertanejo universitário perpassam sobre a experiência de relacionamento extraconjugais e os efeitos produzidos tanto a nível individual quanto coletivo. A infidelidade muitas vezes é retratada como um fim em si mesmo – não há mais diálogo nem continuidade após o rompimento de um vínculo. Mas será que isso aparece também assim na vida real e na clínica com casais?
Trago aqui hoje o artigo “Reconstrução de Relacionamento Pós-Infidelidade: Será Esta uma Alternativa Possível?”, publicado em 2021 na revista Pensando Famílias, escrito pela psicoterapeuta Marli Kath Sattler. Este trabalho aborda essa temática delicada e complexa: a possibilidade de reconstrução de um relacionamento após a ocorrência de infidelidade. A psicóloga é mestre em Psicologia Clínica e atua como psicoterapeuta individual, de casal e de família, sendo membro da coordenação, professora e supervisora do Domus, Centro de Terapia Individual, Casal e Família.
Saindo das respostas fáceis e simplistas, a autora parte do reconhecimento de que, embora a infidelidade seja frequentemente interpretada sob o viés da moralidade, na díade certo-errado, há uma crescente busca científica e clínica por uma compreensão dos fatores individuais e relacionais que contribuem para esse comportamento, de forma mais comprometida e séria. O artigo é estruturado de forma a apresentar, inicialmente, uma contextualização do tema, apresentando fatores relacionais, individuais e situacionais que podem culminar no ato de infidelidade. A autora é sagaz em apresentar a complexidade do fenômeno de forma múltipla, para em seguida entrar na discussão dos aspectos que influenciam a possibilidade de reconstrução do relacionamento.
Sattler enfatiza que, após um período de instabilidade e sofrimento característico de um momento de crise relacional e pessoal, é possível que ocorram mudanças positivas na qualidade da relação, desde que haja um entendimento das motivações que levaram à infidelidade, capacidade de tolerar frustrações e um desejo sincero de ambos os parceiros de dar uma nova chance ao relacionamento. Esse é um olhar novo para o fenômeno da traição, visto que é transformado e não lido mais somente como algo trágico e fadado ao fim da relação. Entre os fatores destacados pela autora como fundamentais para a reconstrução estão a compreensão das causas da infidelidade, a disposição para mudanças individuais e conjugais, e a importância da comunicação aberta e honesta.
Em um extra, a autora também traz elementos interessante da fisiologia cerebral como uma etapa adicional na psicoterapia de casal, no formato de psicoeducação que possibilite um acolhimento multidisciplinar. A leitura do artigo pode proporcionar insights valiosos sobre as possibilidades de intervenção terapêutica em casos de infidelidade, ampliando a compreensão sobre os caminhos de reconstrução do relacionamento.
Por fim, a autora compreende que é fundamental que as próprias psicóloga e psicólogas que trabalhem com casais suspendam seus juízos morais e avaliações pessoas sobre o fenômeno apresentado. É apenas desta forma que será possível abrir caminho para o entendimento mais ampliado e sensível de ambas as partes, tanto quem traiu quanto quem foi traído. Em suma, o artigo de Sattler oferece uma abordagem sensível e fundamentada sobre a possibilidade de reconstrução de relacionamentos após a infidelidade, destacando a importância de uma intervenção terapêutica que considere as especificidades de cada casal e promova a ressignificação do vínculo afetivo.
Referência:
Sattler, Marli Kath. (2021). Reconstrução de relacionamento pós-infidelidade: será esta uma alternativa possível?. Pensando familias, 25(1), 68-82. Recuperado em 20 de maio de 2025, de https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-494X2021000100007&lng=pt&nrm=iso.
Arthur Alves de Oliveira Silva
Aluno(a) Colaborador da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea
Psicólogo formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) desde 2023, com ênfase em Psicologia Clínica e Social
Mestrando em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (FAFICH/UFMG)
