Texto baseado no artigo “La carta relacional en terapia de pareja: un recurso narrativo para la reconstrucción de la ética y el bienestar interpersonal” de Adrián Montesano & Ottar Ness (2019)
Por Vanessa Pereira de Lima
O artigo “La carta relacional en terapia de pareja: un recurso narrativo para la reconstrucción de la ética y el bienestar interpersonal”, foi escrito por Adrián Montesano & Ottar Ness, professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade de Oberta de Catalunya, Espanha e Ottar Ness da Faculdade de Ciências Sociais e Educacionais, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, Trondheim, Noruega.
O texto se dedica a trazer a carta relacional como um recurso técnico na terapia de casal. Trata-se de uma ferramenta advinda da terapia narrativa que pauta a ética relacional dos casais a partir de uma intervenção breve. Esta intervenção se dá por meio de duas entrevistas e uma tarefa de escrita. É apresentada as bases teóricas, algumas aplicações práticas e, por fim, discute-se o potencial desse mecanismo a partir de um estudo de caso. Com isso, o texto finaliza as limitações e possibilidades futuras para se trabalhar na terapia de casais.
Para exemplificar, os autores apresentam alguns contextos, como um casal que busca a terapia como um último recurso para seguir com sua relação que vinha com desentendimentos recorrentes. Uma situação em que pais separados não conseguem coordenar a custódia e a educação dos filhos e um casal heterossexual em que houve uma traição por parte de um dos membros do casal, mas que desejam continuar juntos. Os autores pontuam que experiências como essas são comuns nos consultórios, que, embora complexas, é possível contar com recursos que nos permitem evitar que os conflitos escalonem. Assim, o artigo demonstra a possibilidade de reconstruir a ética relacional do casal por meio da carta relacional no sentido de diminuir conflitos e polarizações.
Os conflitos podem surgir de diferentes ordens, sendo uma delas o modo de vida marcado pela estrutura socioeconômica na cultura ocidental. Além dos dogmas morais, políticos e religiosos que embasam as relações sociais e familiares, no contemporâneo, o individualismo e consumismo passaram a ser fonte de conflitos nos relacionamentos, sejam amorosos ou familiares. Isso tornou as relações mais flexíveis e fluidas, se redefinindo constantemente, o que traz fortes angústias para casais que buscam o ideal de amor romântico. O que os autores põem em análise é que ambos os extremos — individualismo e amor romântico — vão em direção contrária do que se propõe a ética relacional. Esta não se trata de um conjunto de crenças e valores sobre como deve ser uma relação, mas de aguçar a consciência sobre a relação e conversar com ela de modo que ambos possam se relacionar com a relação que mantém.
A técnica da carta relacional é importante por dar um panorama em momentos distintos da terapia. Mais comum na terapia de comunitária, família ou individual, faz do artigo uma pista para a carta relacional na terapia de casal, assim como o trabalho que os autores citam de Stephen Madigan (2017, 2019) denominada A entrevista relacional informada pela terapia narrativa para casais de alta conflitividade. A entrevista consiste em iniciar uma abertura ao diálogo com ambas as partes para lidarem com as práticas legais envolvidas. Nesse contexto, é importante fazer o casal se reconectar com aquilo que um dia os uniu. Em um segundo momento, convida-se o casal a entrar em contato com visões individualistas e a influência de outros contextos como filhos, família, amigos, entre outros. Essa técnica mostra que problemas e conflitos não são individuais, tirando o foco do problema para as relações que os atravessam e constitui. Por último, os autores apresentam a importância dos testemunhos, documentos, a carta relacional como um guia de boas práticas. Ainda é destacado que a carta relacional pode ser usada em diferentes contextos que não só os judiciais, mas como uma maneira de trabalhar o bem-estar emocional, bem como interpessoal e comunitário.
Os autores seguem nos dando pistas sobre a prática da carta relacional. Um exemplo descrito é o terapeuta escrever uma carta à relação de um casal e o casal responder como se fosse a relação. Dar voz a relação enquanto uma entidade e ouvir o que ela está dizendo. O artigo vai trazendo elementos de como a carta relacional pode ser um instrumento para olhar para a relação, como uma terceira pessoa na vida do casal, onde cada um se olha, olha para o outro e ambos olham para a relação. Ao dar voz para a relação, sai de uma perspectiva, para diferentes outras. Ao invés de se criar distâncias, cria-se aproximação com a relação, possibilitando atitudes mais colaborativas e menos individualistas.
Neste trabalho, as autoras descreveram a técnica da carta relacional a partir da análise de sua aplicação em um breve caso real. Contudo, cada ferramenta ou recurso utilizado na terapia de casal, precisa ser avaliado antes de sua aplicação, pois são sempre limitados. As autoras ressaltam que os recursos precisam ser adaptados a depender da singularidade das pessoas envolvidas. Por exemplo, em uma relação em que alguém apresenta dificuldade com escrita, pode ser adaptado para áudios. Essa técnica pode ser considerada complexa, exigindo minimamente um bom manejo em entrevistas, diálogos ou mesmo uma conversa com casais. Caso o terapeuta seja iniciante, orienta-se que o faça com supervisão. Uma última orientação feita pelas autoras é a que a carta relacional, embora se trata de retomar uma negociação na relação conjugal, é necessário ser aplicada com outras técnicas para dissolver padrões e crenças que conflitam com o desejo do casal.
Para concluir, como todo recurso é um recurso e não o fim, mesmo com as limitações da carta relacional, ela tem seu potencial. Algumas pistas valiosas que destaco do texto, é a possibilidade de utilizar a carta relacional como maneira de conhecer, prevenir e promover bem-estar nos primeiros relacionamentos de adolescentes.
Referência
Montesano, A. y Ness O. (2019). La carta relacional en terapia de pareja: Un recurso narrativo para la reconstrucción de la ética y el bienestar interpersonal. Revista de Psicoterapia, 30(114), 107-128. https://doi.org/10.33898/rdp.v30i114.323
Vanessa Pereira de Lima
Aluna colaboradora da 4ª turma do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea
Psicóloga Social
Doutora em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Coordenadora de projeto social na Organização da Sociedade Civil Redes da Maré
Colaboradora do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro
