Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

Finanças na conjugalidade: o elefante branco na sala?

 

Texto baseado no artigo “Escala de Manejo do Dinheiro na Conjugalidade (EMDC): Construção e Evidências de Validade”, de Lídia Käfer Schünke, Rebeca Veras de Andrade Vieira, e Clarisse Pereira Mosmann, publicado em 2021.

Por Arthur Alves de Oliveira Silva

Os meus, os seus, os nossos. Lidar com dinheiro e propriedade não é um desafio fácil na vida de ninguém. Quando nós decidimos juntar afetivamente com alguém, pouco se fala sobre esse tema espinhoso, pois não se associa tão rapidamente afeto e amor com responsabilidade financeira. A vida financeira de um casal não é neutra, e pode ser tanto um fator de coesão quanto uma fonte de tensão e conflito. O artigo em questão intitulado “Escala de Manejo do Dinheiro na Conjugalidade (EMDC): Construção e Evidências de Validade”, publicado em 2021, visa atenuar, de alguma forma, alguns elementos que aparecem no contexto, sendo um instrumento original, desenvolvido no Brasil, com base em estudos nacionais e internacionais sobre manejo financeiro conjugal, mas criado pelas autoras brasileiras Lídia Käfer Schünke, Rebeca Veras de Andrade Vieira e Clarisse Pereira Mosmann.

O texto se estrutura seguindo a forma tradicional de artigos empíricos em psicologia: inicia com uma introdução que situa a importância do tema e do instrumento proposto, seguida da metodologia utilizada na construção e validação da escala, dos resultados obtidos e, por fim, da discussão e considerações finais. O dinheiro, que muitas vezes é visto como algo que não se costuma falar, é colocado em evidência, saindo daquele lugar de “elefante branco na sala”. A partir daí, o estudo identifica quatro dimensões principais que compõem o manejo do dinheiro na conjugalidade: coesão financeira, intimidade financeira, infidelidade financeira e partilha de bens. A coesão diz respeito à colaboração participativa na gestão financeira do casal, enquanto a intimidade remete à abertura para conversas sobre dinheiro e planejamento, sendo conceitos separados. Já a infidelidade financeira aponta para comportamentos mantidos em sigilos ou até mesmo enganosos no trato com os recursos partilhados. Por fim, a partilha de bens reflete a maneira como o patrimônio é dividido e gerido, com todas as suas questões legais e jurídicas. No fim, vemos um instrumentos generoso, válido e consistente para analisar cada um desses elementos em cada casal.

No entanto, mais do que os dados em si, o que chama atenção é a sensibilidade com que as autoras lidam com a temática, reconhecendo que o tema pode ser difícil e delicado, muito além de uma mera quantia de dinheiro. A discussão vai além da técnica e reconhece que o dinheiro é, muitas vezes, um território simbólico, onde se projetam valores, afetos, poderes e vulnerabilidades. Nesse sentido, a EMDC no contexto de trabalho de uma psicologia de orientação construcionista não é apenas de atestar melhor ou pior relação financeira do casal; ela é um convite singular à reflexão, ao diálogo e ao encontro. 

Pessoalmente, senti falta de pensar em alguns marcadores importantes no cenário social brasileiro. Como podemos pensar questões de classe, raça, gênero? E quando pensamos em relações que não são cis heterossexuais? A família de origem também influencia nas decisões financeiras para pensar na coesão do casal? O que acontece quando alguma psicopatologia é vivenciada por alguma das partes? Essas questões e outras ficam marcadas, mas estas não tiram a riqueza do instrumento, mas ampliam de forma crítica e convidam a tensionar algumas tomadas de decisões colaborativamente. 

Referência: 

Schünke, L. K., Vieira, R. V. de A., & Mosmann, C. P.. (2021). Escala de Manejo do Dinheiro na Conjugalidade (EMDC): Construção e Evidências de Validade. Psico-usf, 26(2), 305–318. https://doi.org/10.1590/1413-82712021260209

Arthur Alves de Oliveira Silva

Aluno(a) Colaborador da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea

Psicólogo formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) desde 2023, com ênfase em Psicologia Clínica e Social

Mestrando em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (FAFICH/UFMG)