Gabriela Maldonado Farnochi & Carla Guanaes-Lorenzi
Texto baseado no artigo ‘Então, deixa eu ver se entendi’: narrativas de casais sobre seu processo terapêutico de Gabriela Maldonado Farnochi e Carla Guanaes-Lorenzi (2022).
O artigo ‘Então, deixa eu ver se entendi’: narrativas de casais sobre seu processo terapêutico (2022), foi escrito por Gabriela Maldonado Farnochi, psicóloga e mestre em psicologia e Carla Guanaes-Lorenzi, psicóloga, terapeuta familiar e professora associada do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. O texto contextualiza a terapia de casal como um recurso clínico que surgiu na década de 1950, demonstrando a transição de um modo individualizado para uma abordagem construcionista, priorizando o diálogo do/no relacionamento. Na compreensão construcionista, o “eu” e “tu” passam pela trama do “nós”. Esse nós, como discutido pelas autoras, não é somente a soma de individualidades, mas cria uma terceira realidade, que é o relacionamento conjugal. Aqui, a individualidade e o relacionamento se cruzam e se influenciam mutuamente. Isso possibilitou o avanço de referenciais teóricos e técnicos de diferentes correntes, entre elas a psicanálise, cognitivo comportamental, sistêmico e construcionismo social.
O texto traça a trajetória da terapia de casal desde sua entrada na clínica na década de 1980, enfatizando a linguagem, o contexto sociocultural e a construção de elementos que nos dão pistas sobre a compreensão da realidade e dos relacionamentos. Esse ponto é central na discussão apontada pelas autoras no sentido do construcionismo social compreender que a realidade não é uma entidade fixa e limitada objetivamente, descentralizando visões essencialistas e estruturalistas sobre indivíduos, famílias e casais. Neste sentido, o construcionismo social busca os diferentes matizes produzidos no contexto social e histórico que são sempre provisórios e em constante mudança. Assim, é importante que o terapeuta tenha sensibilidade aos pressupostos construcionistas e aos diferentes significados e particularidades produzidos em cada contexto.
Dito isto, foi realizado um estudo com seis casais heterossexuais e como eles narraram seus processos terapêuticos. A ideia é que a visão processual do casal se dá por uma motivação inicial, nas experiências vividas durante a terapia e nas mudanças alcançadas.
As autoras ressaltam que a produção de conhecimento sobre processos terapêuticos é multifacetada e envolve diferentes linhas teóricas, e na terapia de família e de casal não é diferente. Há diferentes estudos que podem considerar ou não as questões sociais e estruturais de nossa sociedade, principalmente, em uma sociedade marcada pelo capitalismo neoliberal, que moldam as formas de organização conjugal e que nem sempre as responsabilidades são compartilhadas igualmente. Muitos conflitos decorrem de mudanças nas expectativas de ambos os membros da relação, sendo muito comum a busca por terapia de casal para manejar os acordos estabelecidos ou que precisam construir. Aqui, a terapia entra como um processo conversacional, sendo o terapeuta um facilitador na dinâmica do casal. Assim, essa perspectiva teórica potencializa diferentes práticas clínicas, com abordagens colaborativas, que valorizam a narrativa dos clientes, na riqueza das pluralidades de vozes, com foco nos recursos e não no problema.
O texto também abordou como as experiências de casais que buscam terapia valorizam a mediação aberta ao diálogo. Mudanças significativas nos padrões de suas interações foram relatadas, tendo em vista que o foco na terapia se dava na valorização da abertura ao diálogo, deixando de responsabilizar somente um dos membros do casal, o que facilitou e modificou a dinâmica conjugal. As análises produzidas pelas autoras ao longo do texto ressaltam a importância de a terapia ser um espaço que valoriza o diálogo, vez que muitos casais não encontram um espaço ou momento adequado para conversarem sobre a relação.
Mudanças ocorrem na vida conjugal, principalmente, com a chegada dos filhos, isso pode dificultar com que os casais encontrem esse espaço. Assim, o texto apresenta como o processo terapêutico é importante para o casal, encontrar, conectar ou fazer acordos para a relação. O texto nos leva à reflexão sobre até que ponto os conflitos dos casais podem estar relacionados no cuidado de muitos outros relacionamentos na relação individual, muitas vezes negligenciando os seus próprios. Apesar de inicialmente os casais buscarem terapia por conflitos na relação conjugal, o texto mostra como a terapia trouxe momentos significativos, resgatando laços, histórias, vivências, melhorando a qualidade da relação.
As autoras deixam como reflexão que muitos dos conflitos enfrentados estão nas diversas relações que o relacionamento cuida e como as pressões e expectativas sociais são estruturantes e se expressam na dinâmica da relação conjugal. Equilibrar as responsabilidades da vida a dois e manter a individualidade são tarefas difíceis e podem levar ao desgaste da relação. Com isso, o espaço terapêutico, como demonstrado nos casais entrevistados, foi um espaço de construção e abertura ao diálogo e criação colaborativa de possibilidade de futuro. Isso levou aos casais a olhar o terapeuta como um facilitador para uma abertura de boas conversas, favorecendo um espaço para conversar uns com os outros e não para os outros na relação de casal.
Para concluir, o artigo instiga terapeutas de casal a não só terem bons recursos e ferramentas terapêuticas, como levanta as poeiras de questões profundas na vivência conjugal: as relações de gênero, a mudança na rotina do casal com o nascimento de filhos, questões relacionadas às finanças, relações extraconjugais, entre outros fatores, ainda que não abordado de forma explícita no texto, se destaca, sobretudo, nas discussões mais contemporâneas. É possível perceber que, para os casais que participaram da pesquisa, todas essas questões de alguma maneira foram a motivação para a busca por terapia de casal. Esses espaços eram buscados, no ponto de vista dos casais, como um lugar de reflexão, escuta, desafios e responsabilidades compartilhadas e individuais.
Por fim, as autoras relatam como os casais descreveram a atuação dos terapeutas como sendo significativas em seus processos dialógicos. O texto oferece pistas primorosas, a partir da abordagem construcionista social, para a prática profissional e revela como os casais que buscam a terapia atribuem significado substancial ao trabalho desenvolvido colaborativamente, estabelecendo aprofundamento nas formas de manejo clínico para os terapeutas de casal.
Referência
FARNOCHI, Gabriela Maldonado; GUANAES-LORENZI, Carla. ‘Então deixa eu ver se entendi’: Narrativas de casais sobre seu processo terapêutico. Psicol. clínica. , Rio de Janeiro, v. 2, pág. 381-403, atrás. 2022. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci _arttext&pid=S0103-56652022000200009&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 17 maio 2025.
