Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

“Is it safe enough?” (2024) – de J. F. Snellingen, P. E. Carli e A. Vetere

 

Snellingen, Carli e Vetere (2024) abordam na pesquisa “Is It Safe Enough? An IPA Study of How Couple Therapists Make Sense of Their Decision to Either Stop or Continue with Couple Therapy When Violence Becomes the Issue” possibilidades de conduta terapêutica quando a violência atravessa a vida de um casal. A pesquisa foi realizada nos Serviços de Aconselhamento Familiar (Norwegian Family Counselling Services, NFCS) da Noruega, que oferecem terapia gratuita e não referenciada para casais e famílias. Esses serviços têm um papel importante na prevenção da violência familiar.
A pesquisa utilizou a Análise Fenomenológica Interpretativa (IPA) e grupos focais para coletar dados sobre as experiências das pessoas terapeutas. A abordagem escolhida permite uma compreensão profunda das decisões clínicas em contextos complexos.
As pessoas autoras exploram durante a pesquisa como terapeutas de casal avaliam a continuidade das sessões conjuntas quando a violência se torna um problema, destacando três temas principais de experiência grupal que compõem o processo de “fazer sentido clínico”. Esses temas abordam a segurança, a viabilidade de um projeto conjunto e as fontes de informação utilizadas pelos terapeutas.
A pesquisa sugere que as pessoas terapeutas devem desenvolver suas capacidades individuais e organizacionais para lidar com casos de violência, sendo essencial adquirir conhecimentos e habilidades específicas sobre situações de violência. A reflexão contínua e a supervisão são fundamentais para aprimorar a prática clínica, portanto é sugerido que as organizações de referência dos atendimentos devem fornecer recursos adequados e um ambiente de apoio para as pessoas terapeutas que irão realizar o acompanhamento. Também é destacado que o trabalho em colaboração com outros equipamentos de saúde ou até da mesma rede de referência pode potencializar o trabalho feito com os casais atendidos.
A pesquisa de Snellingen levanta questionamentos importantes acerca do acompanhamento de casais e famílias, trazendo contribuições para pensar na conduta terapêutica a ser seguida. É importante destacar que o trabalho faz parte de uma rede de assistência e cuidado bem estabelecida do território Norueguês, com políticas públicas bem consolidadas de segurança e proteção em casos de violência intrafamiliar e baseada em gênero.
Se pensarmos em um paralelo com a rede pública de atendimento às famílias no Brasil, entendemos como equipamentos e iniciativas como a apontada na pesquisa poderiam contribuir em um cenário de cuidados atravessados pela violência. Fazendo um recorte para a realidade experienciada na cidade do Rio de Janeiro, onde os equipamentos públicos especializados no cuidado às famílias está centralizado nos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) e nas Clínicas da Família, vemos como projetos voltados para resolução de conflitos poderiam fortalecer políticas públicas já existentes, indo além das atuações para manutenção de crises e conflitos familiares, como geralmente é feito.
Para que tal movimento seja possível, é necessário pensar nos marcadores sociais que diferem os territórios de Brasil e Noruega, levando em consideração atravessamentos identitários de raça, gênero e sexualidade, como também aspectos socioeconômicos e dinâmicas territoriais, que irão influenciar diretamente no acesso à políticas públicas de promoção, prevenção e cuidado em saúde no contexto familiar e de casais em casos de violência.

 

Referências
• SNELLINGEN, Jan Frode, CARLI, Pal Erik. & VETERE, Alice. Is It Safe Enough? An IPA Study of How Couple Therapists Make Sense of Their Decision to Either Stop or Continue with Couple Therapy When Violence Becomes the Issue. Behavioral Sciences. Suíça: v. 14, n. 37, Janeiro de 2024.