Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

Memórias sobre momentos marcantes vividos em terapia de casal


No artigo escrito por Farnochi, Guanaes-Lorenzi e Ferreira (2022), temos contato com os resultados de uma pesquisa feita com casais sobre quais foram os momentos marcantes que estes experienciaram na terapia, sob uma perspectiva construcionista social. A ideia das autoras foi de entender como esses momentos tidos como marcantes para os membros do casal, puderam produzir uma diferença e transformação em seus processos terapêuticos.
Sendo o construcionismo social uma postura teórico-prática pós-moderna, sua visão questiona a existência de uma verdade única e absoluta sobre as experiências humanas, e prioriza a multiplicidade de vozes e discursos sobre o que é estar em relação, o que é participar do mundo etc. Dessa forma, na terapia de abordagem construcionista o foco está no processo dialógico como forma de construir e reconstruir significados (Grandesso, 2011), o que impulsiona “os indivíduos para reescreverem a experiência vivida” (Farnochi, Guanaes-Lorenzi e Ferreira, 2022, p.43) e, assim, encontrarem de forma compartilhada novos sentidos e territórios possíveis de vida.
Um dos papeis importantes do terapeuta é auxiliar o casal a encontrar outras formas de descrever o problema que vivem e, nesse sentido, organizarem seus sistemas relacionais e familiares de outros jeitos. Então o terapeuta precisa estar atento a como a conversa amplia as possibilidades discursivas, através de uma escuta apreciativa, curiosa e com discursos que “favorecem a emergência de algo novo” (Farnochi, Guanaes-Lorenzi e Ferreira, 2022, p. 46).
Esses momentos de emergência normalmente são experienciados como marcantes pelos casais e pessoas que participam do contexto terapêutico, pois eles ampliam as possibilidades de lidar com os problemas que antes pareciam limitados. Além disso, eles também acontecem de forma espontânea e são fruto de uma postura corporificada de todos no andamento da conversa, sendo fruto dessa interação dialógica.
Apesar de serem raros e impossíveis de planejar, o terapeuta, através da sua forma aberta ao diálogo e à multiplicidade de vozes e experiências, pode criar melhores circunstâncias que promovam e facilitem a ocorrência desses momentos marcantes.
No artigo, as autoras apresentam dois casos de atendimento de terapia de casal para ilustrar como esses momentos marcantes fizeram diferença. Ambos os casais participaram da terapia e, após um tempo do término da mesma, foram entrevistados sobre esses momentos a fim de se cumprir o objetivo da pesquisa.
Alguns pontos que marcaram os casais em seus processos: viver algo já conhecido, mas de um jeito novo; conseguir dar nome ao que estava sem expressão; o uso de metáforas para ampliação dos sentidos e experiências vividas; diálogos que convidem a pensar sobre os próprios valores e que organizam a ética relacional do casal; construir esperança e formas de continuar olhando adiante, entendendo o que se passou e quais passos a relação ainda pode tomar; se conectar com a história passada e quais bons momentos viveram juntos; se desvincular de certas pressões sociais e discursos dominantes sobre o que é ser um casal. 
Todos esses pontos foram destacados como marcantes nas experiências dos casais, o que traz como reflexão a importância de um processo terapêutico que valorize a mudança de discurso e de significados, que permita ao casal viver essa experiência de forma corporificada, valorizando suas potencialidades, autonomia e criando um senso de esperança para o futuro.
 
Referências
FARNOCHI, G. M.; GUANAES-LORENZI, C.; FERREIRA, C. B. Memórias sobre momentos marcantes vividos em terapia de casal. In: CORRADI-WEBSTER, C. M.; GUANAES-LORENZI, C.; BARBOSA, F. C.; ELIAS, L. C. S.; PASIAN, S. R. [Orgs.]. Comportamento Humano em diferentes vertentes: estudos contemporâneos. 1. ed. São Carlos: Pedro & João Editores, 2022. p. 41-62.
 
GRANDESSO, Marilene A. Sobre a reconstrução do significado: uma análise epistemológica e hermenêutica da prática clínica. 3. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011. (Publicado originalmente em 2000).