Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

Construcionismo social e irreverência terapêutica – Gianfranco Cecchin

 

Texto baseado no artigo “Construcionismo social e irreverência terapêutica” de Gianfranco Cecchin, (1996). 

O capítulo de Gianfranco Cecchin, “Construcionismo social e irreverência terapêutica”, publicado no livro Novos paradigmas, cultura e subjetividade em 1996, apresenta a importância de ser um terapeuta irreverente a partir do construcionismo social, na terapia sistêmica familiar Para Cecchin, as narrativas que ocorrem na família é intrínseca ao domínio social. Por irreverência, o texto apresenta uma postura, um compromisso, uma forma de estar no mundo pensando outros mundos possíveis, portanto, ser irreverente para Cecchin é estar atento ao próprio processo de terapeuta, este devendo estar atento para não cair em formas rígidas e de capturas de seu suposto saber. Ele precisa estar atento aos movimentos, mudanças, desvios, não havendo uma direção preestabelecida, mas se aproximando de um diálogo, uma conversa, onde o cliente insinua a direção. Sendo pioneiro da Escola de Milão, Cecchin se mostrou irreverente ao desafiar as práticas tradicionais da terapia sistêmica e apresentando uma perspectiva mais colaborativa e descentralizada da figura do terapeuta, sendo esse parte do processo e não a figura principal. O texto apresenta as mudanças conceituais ao longo da terapia sistêmica que passa pela passagem da energia à informação, passando pelas noções de construções sociais até chegar na saída do foco da família para o terapeuta.

A partir da influência da Escola de Palo Alto, em que o conceito de energia deu lugar ao de comunicação, as relações sociais deram lugar para pensarmos as relações e interações sociais, incluindo o terapeuta e seu lugar no self terapêutico. Pensava-se a ideia de jogo terapêutico em que cada família jogava. Aqui já havia o fascínio dos terapeutas por essa ideia em que na família havia disputas de narrativas e quando havia uma pausa, os terapeutas acreditavam se tratar de um movimento que voltaria a cair nas disputas relacionais. Essas batalhas que ocorriam dentro do sistema familiar muitas vezes arrastavam o terapeuta, o incluindo nessa dinâmica de disputas e manobras. Era uma batalha pelo poder de ganhar a narrativa e os terapeutas estavam nessa disputa pelo poder de ganhar. Nessa ocasião, o terapeuta não cedia e caso algum membro da família não comparecesse à sessão, esta não ocorria, entrando numa relação que se assemelhava mais a um confronto, do que uma cooperação entre os membros.

Em um segundo momento, Cecchin inspirado pelas ideias de Bateson (1972) sobre o poder, este seria uma ideia, uma construção que quanto mais reforçado, mais se produz a sua existência e atinge a todos os protagonistas que participam do processo terapêutico. As ideias de Bateson ao trazer a noção de que há algo que mantém as famílias juntas e não necessariamente é pelo motivo de se superarem ou lutar entre si, mas na busca por sentido mútuo. O poder estava ligado a busca por sentido na relação e interação, não era necessariamente a melhor maneira, mas era o meio pelo qual se percebiam na(em) relação. Isso deu uma abertura nos processos terapêuticos em que se colocava em perspectiva todas as relações, inclusive a do terapeuta. Assim, abre um questionamento sobre a ideia de descoberta, levando aos terapeutas sistêmicos repensar que na terapia é o próprio processo de troca, das perguntas que fazemos é que vai dar o contorno do processo terapêutico, todos são participantes ativos nessa construção, incluindo o terapeuta e as famílias.

Outro ponto marcante do texto é a reflexão que Cecchin faz do terapeuta enquanto observador das famílias. Ele apresenta alguns exercícios como pistas para o terapeuta curioso e irreverente. Uma das reflexões apontadas é que o terapeuta partia sempre de uma hipótese que se confirmada e a família percebesse, o problema estaria resolvido. O perigo de se ter uma hipótese seja antes ou durante o processo terapêutico pode gerar tensões e conflitos com a família, caso essa hipótese queira se confirmar a todo custo. Uma hipótese pode ter uma boa abertura, mas ela é sempre uma hipótese e não uma verdade. Ela cria ressonâncias, graus de abertura para uma boa conversação, portanto, não é fechada e nem se fecha em si.

Cecchin apresenta uma discussão importantíssima sobre neutralidade que para ele não está relacionada com a ausência de opinião, mas com a potencialidade de observar os diferentes pontos de vistas, mas sem se capturar por nenhum deles. Dessa maneira, evitam-se imposições pessoais ao mesmo tempo, enfatiza a necessidade de autorreflexão constante por parte do terapeuta.  Cecchin salienta que um bom terapeuta é aquele que é irreverente, curioso e questionador sobre nossas crenças e valores. Ser irreverente é ser estrategista, alguém que coloca em rota de fuga as certezas para entrar nos caminhos móveis. Foi nesse território móvel que o modelo sistêmico foi ganhando novos contornos.

Nesses novos contornos, é preciso destacar o dispositivo da conversação de Anderson e Goolishian (1988) citados no texto. Sendo assim, o terapeuta se inclui na conversação como parte integrante do processo terapêutico, onde ao fazer boas perguntas, consegue fertilizar a conversa com perguntas circulares, evitando ser um terapeuta moralizador que se utiliza de suas vivências pessoais e contextuais para criar distâncias na relação terapêutica. Sem dúvidas, esse é um dos maiores cuidados que devemos ter na relação com o cliente. Cada um de nós é/foi forjado por sistemas próprios (singular) e por sistemas sociais (subjetivo), levar isso em consideração na hora do processo terapêutico é essencial para não cairmos no sistema de captura e de culpabilização.

Em síntese, o texto de Cecchin é uma valiosa contribuição para o terapeuta sistêmico adotar uma postura reflexiva que vai desde um sistema micro quanto macrossocial. A proposta do processo terapêutico ser circular e recursivo amplia a possibilidade de atuação do terapeuta, vez que as vozes se complementam e não necessariamente disputam entre si. A irreverência do terapeuta estaria justamente nessa (com)posição, isto é, posições compartilhadas pelos diferentes atores que constroem o processo terapêutico.

Referência:

CECCHIN, Gianfranco. Construcionismo social e irreverência terapêutica. In: SCHNITMAN, Dora Fried. (Org.). Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre: Artes médicas, 1996. p. 216-227.