Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

“Aproximações Possíveis da Terapia Focada na Solução aos Contextos Grupais” de Rasera e Martins (2013)


A Terapia Focada na Solução (TFS) surge como abordagem terapêutica nos Estados Unidos, na década de 1980, com os estudos de Steve de Shazer (1985, 1988), que teve influência das teorias pós-estruturalistas e foi desenvolvida dentro do contexto de terapia familiar. O artigo desenvolvido por Rasera e Martins (2013) teve por objetivo analisar as transformações e possibilidades criadas no contexto de terapias grupais, com o uso dessa abordagem. 

A TFS é uma teoria que se aproxima das ideias pós-modernas, por entender a linguagem e o que o cliente traz como central na terapia. A partir dessa visão, a TFS busca encontrar recursos e potências dentro do que o próprio cliente leva para as sessões, como forma de auxiliá-lo em suas queixas e necessidades. A postura é que no contexto em que se criou o problema, também é possível encontrar a solução.

Nesse sentido, outra contribuição importante da TFS é entender que não é necessário saber sobre o problema – ou detalhes deste – para conseguir resolvê-lo. Através dessa perspectiva, o terapeuta fica numa postura de cooperação com seu cliente, entendendo que ele (terapeuta) também é parte desse sistema que será trabalhado. de Shazer (1985) nega a possibilidade de um cliente estar resistente à resolução de seu problema; pelo contrário, se ele veio à terapia, é porque realmente deseja que alguma mudança ocorra. Sendo assim, a colaboração mútua entre as partes e a busca por recursos dentro da própria história do cliente, se tornam chaves para que a solução seja possível.

Três pontos importantes dessa abordagem: 1) não se procura a solução ideal, mas sim uma solução possível; 2) se não é necessário descrever detalhadamente o problema, é através desse lugar que a terapia poderá ser breve; 3) define-se metas e entende-se que a mudança é inevitável, ou seja, ela irá acontecer (então toda intervenção e fala do terapeuta parte desse pressuposto).

Dentro das contribuições da TFS para contextos grupais, os autores analisam duas propostas de trabalho, uma de Metcalf (Terapia de Grupo Focada na Solução) (1998) e outra de Sharry (Trabalho de Grupo Focado na Solução) (2001), na intenção de entender de que forma elas se assemelham ou diferenciam, além de refletir sobre as aproximações de ambas da abordagem de Shazer (1985).

Os autores vão afirmar que, epistemologicamente, a terapia de Metcalf (1998) se aproxima dos trabalhos de Milton Erickson, enquanto Sharry (2001) se autodenomina como construcionista social. Em virtude dessa diferença, percebe-se que Metcalf (1998) possui um viés mais individualista e essencialista; já Sharry (2001) compartilha dos entendimentos elaborados por de Shazer (1985), numa visão mais relacional do indivíduo com seu contexto terapêutico. Enquanto a primeira diz que grupos são lugares que dão um senso de pertencimento e aumentam a aceitação, suporte e validade, o segundo baseia-se na ideia, a partir da literatura de grupos de autoajuda, formas mais breves de intervenção.

Alguns pontos similares entre os dois autores sobre contextos grupais estão: a visão que difere cliente do problema; o processo ativo do terapeuta no processo terapêutico; a busca pelo que já funciona e quais recursos as pessoas têm para lidar com seus problemas; abandonar a investigação criteriosa por entender mais do problema; não buscar algo “por trás” do que o cliente diz; estabelecimento de metas; utilização da pergunta do milagre e das perguntas de escala (recursos propostos por de Shazer [1985]); a procura por novas descrições para os problemas; além de outras ferramentas e autores similares que ambos utilizam em sua prática grupal.

Sendo ambos, Rasera e Martins (2013), autores do artigo o qual baseei esta resenha, nomes com grandes contribuições para as abordagens pós-modernas, a TFS, a meu ver, é coerente de ser estudada e aprofundada pelos mesmos. Em suas análises finais mora a ideia de que é possível utilizar ferramentas da TFS no contexto grupal, assim como já são utilizadas na terapia familiar e individual. Todavia, é necessário que se tenham mais estudos sobre a origem epistemológica dessas abordagens, por poderem soar como formas estratégicas e objetivas de como fazer terapia, enquanto na verdade possuem como origem as ideias pós-modernas e pós-estruturalistas.

Referência:

Rasera, E. F., & Martins, P. P. S.. (2013). Aproximações possíveis da terapia focada na solução aos contextos grupais. Psicologia: Ciência E Profissão, 33(2), 318–335. https://doi.org/10.1590/S1414-98932013000200006