Texto baseado no capítulo “Negociando identidades: uma adaptação do exercício ‘como se’ para contextos de terapia individual”, Pedro Pablo Sampaio Martins (2019), publicado no livro “Construcionismo Social e Práticas Colaborativo-Dialógicas: Contextos de Ação Transformadoras”, de organização de Marilene Grandesso
Por Arthur Alves de Oliveira Silva
Uma das grandes riquezas nas práticas pós-modernas em terapia é a flexibilidade e engenhosidade com que os seus autores ampliam suas atividades. Por exemplo, ao falarmos sobre Terapia Narrativa, ora entendida como uma abordagem individual, esta logo se amplia para “práticas narrativas coletivas”, compreendendo que seus pressupostos podem ser expandidos para contextos grupais de forma muito orgânica, sem perder rigor e qualidade. Também observamos o inverso: práticas que originalmente aparecem num contexto comunitário podem ser transpostas para um contexto individual, através da efervescência criativa dos profissionais. É o caso do exercício “como se”, de Harlene Anderson, no qual possuía uma formato original voltado para consultorias em grupo, a partir de uma situação-problema apresentada por alguém. É do uso dessa prática num contexto individual que esta resenha se propõe a falar.
Marilene Grandesso é um dos grandes nomes das práticas construcionistas no Brasil, tendo vários livros organizados com o propósito de ilustrar os potenciais dialógicos e diferentes recursos conversacionais. É com essa iniciativa que Pedro Martins escreve, na edição de 2019, “Negociando identidades: uma adaptação do exercício ‘como se’ para contextos de terapia individual”, para compor a coletânea de Grandesso. Inicialmente, o autor apresenta o formato original proposto por Harlene Anderson no contexto grupal, explicando cada uma das etapas do exercício e seus objetivos. O intuito do exercício num contexto grupal é reposicionar determinados sentidos acerca de uma situação-problema, utilizando dos membros para buscar novas posições e olhares sobre determinado tema. Dessa forma, entende-se que seria necessário “outras vozes” materialmente para que o exercício fosse feito. Mas o autor do capítulo é mantém a efervescência criativa da pós-modernidade, apresentando não se restringindo ao contexto grupal e propondo uma adaptação possível para contextos de terapia individual.
Pautando-se no elemento central da “construção da identidade”, o autor convida seus pacientes, com muito cuidado e zelo, a contarem alguma história que diga sobre quem são. A partir daí, essa história é recontada pelo terapeuta, agora numa nova posição, para alguém importante na vida do paciente, de forma “encenada” e ocupada pelo cliente. Esta pessoa é posteriormente entrevistada como essa “voz externa” pelo terapeuta. Ao fim, volta-se a posição original de terapeuta e cliente, em uma conversa sobre o que foi vivido e sentido. Pode parecer confuso num primeiro momento, mas Pedro Martins é muito didático e exemplifica o exercício através de um caso clínico atendido por ele. Cada etapa tem sua fundamentação, sendo muito valioso observar o raciocínio clínico pretendido pelo terapeuta na busca de novas descrições de si para o paciente.
Fiquei extremamente encantado com esta leitura, mostrando a potência criativa e a flexibilidade que as práticas pós-modernas carregam em seu seio. Foi possível ver com muita qualidade a forma com que a adaptação para o contexto individual foi bem cuidadosa e ao mesmo tempo rigorosa. Me deu uma sensação de respiro e vontade de experimentar esse exercício, tanto no lugar de terapeuta como de cliente. Fica aqui a recomendação deliciosa dessa leitura.
Referência:
Martins, P. P. S. (2019). Negociando identidades: uma adaptação do exercício “como se” para contextos de terapia individual. In M. Grandesso (Org.) Construcionismo Social e Práticas Colaborativo-Dialógicas: Contextos de Ação Transformadoras (p.373-390). Editora CRV.
Arthur Alves de Oliveira Silva
Aluno(a) Colaborador da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea
Psicólogo formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) desde 2023, com ênfase em Psicologia Clínica e Social
