por Luca Lima
A seguinte resenha possui como objetivo destacar alguns conceitos apresentados por Sheila Mcnamee, professora na Universidade de New Hampshire, em seu texto “Profissionais como pessoas: encontros dialógicos para transformação.”, e pensar em possíveis desdobramentos de seu uso.
Mcnamee, a partir de uma perspectiva de constante (re)construção do construcionismo social, apresenta à pessoa leitora questionamentos sobre as práticas desumanizantes de pensar a relação entre o indivíduo e a sociedade onde está inserido, produzidas por uma perspectiva advinda dos saberes psis. A autora identifica esses saberes como as disciplinas de psiquiatria, psicologia, psicanálise, antropologia e sociologia, nomeando-os de “complexo-psis”. Mcnamee aponta que a partir da visão desse complexo-psis é determinado um modo de pensar focada no indivíduo, na individualidade e autonomia, mas destaca algumas problemáticas que podem aparecer nessa perspectiva.
A autora discorre sobre como que ao seguirmos por esse caminho, “todos os problemas que confrontamos na sociedade contemporânea são sinais de alguma falha ou defeito pessoal dentro de uma visão modernista e individualista.” (MCNAMEE, 2015, p.77). Mcnamee problematiza essa visão, dizendo que a partir do momento que identificamos um problema e decidimos por tratá-lo de forma individual e limitando à um profissional, podemos causar uma deterioração dos laços relacionais. A autora questiona onde está a comunidade para funcionar como rede de apoio para esse indivíduo e levanta a necessidade de pensar estratégias para fugir dessa lógica. Mcnamee nomeia o movimento de pensar alternativas de ação como “presença radical”, um movimento de criar outras estratégias para ver, compreender e estar no mundo.
Mcnamee fala que não pretende criar uma anarquia sobre os princípios de pensar cuidado ou desafiar teorias já estabelecidas, mas sim ampliar o debate e questionar certas práticas. A partir da perspectiva de uma presença radical, podemos perguntar não se certas teorias são úteis, mas onde, quando e pra quem elas são úteis. A autora aposta em uma abordagem social e relacional dos problemas, uma postura que requer curiosidade para entender um sujeito para além de um possível diagnóstico, buscando compreender os meios onde está inserido, quais interações possui e como elas o afetam.
Dessa forma, a proposta de Sheila Mcnamee nos convida a repensar criticamente os modos como compreendemos e lidamos com o sofrimento humano nas sociedades contemporâneas. Ao deslocar o foco do indivíduo isolado para as relações e contextos que o constituem, a autora propõe uma ética do cuidado que valoriza o diálogo, a escuta e a construção coletiva de sentidos. A “presença radical”, enquanto atitude, desafia os modelos tradicionais de intervenção e abre espaço para práticas mais sensíveis às singularidades e à complexidade das experiências humanas. Retomar o papel da comunidade e da relação como elementos centrais na produção de cuidado é, portanto, um passo importante para transformar não apenas as práticas profissionais, mas também as formas como habitamos o mundo e nos responsabilizamos uns pelos outros.
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Lucas Renan Ferreira Lima – Aluno Colaborador da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea
Psicólogo clínico e social formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e instrutor de Kemetic Yoga pela instituição Yoga Skills: School of Kemetic Yoga (Chicago/USA). Pesquisador independente de relações étnico-raciais, racismo, masculinidades negras e saúde mental a partir de uma visão africano-diaspórica direcionada. Atualmente atuando com direitos humanos e violência de Estado em diálogo com a política de segurança pública.
Referências
MCNAMEE, Sheila. Profissionais como pessoas: encontros dialógicos para transformação. In: GRANDESSO, Marilene Aparecida (Org.). Colaboração e diálogo: aportes teóricos e possibilidades práticas. Curitiba: CRV, 2018, p.75-95.
