Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

Momento de referência comum na comunicação dialógica


O quê nas interações torna possível a mudança acontecer? Inclusive, na psicoterapia? Esses são questionamentos importantes estimulados por John Shotter (2017) em seu artigo “Momento de referência comum na comunicação dialógica: uma base para colaboração clara em contextos únicos”, onde o autor vai ponderar e aprofundar numa análise sobre as interações humanas, e como nosso corpo e o que sentimos podem ser como bússolas guiando nossas ações.
Interagir e se relacionar são partes fundamentais da experiência humana, marcadas pela capacidade de lidar com a alteridade que existe no mundo ao redor e estar aberto para a inclusão do outro. Nesse cenário, ser espontâneo contribui para essa comunicação colaborativa, capaz de provocar mudança, novos entendimentos e circunstâncias. Espontaneidade, aqui, é compreendida como as respostas verbais, cognitivas e corporais de um, ao ouvir o outro; e dessa forma de interação surgem também as respostas desse outro e, continuamente, ambos vão criando um espaço que propicia a criação de novos sentidos.

A expressão corporal da espontaneidade é um dos principais pontos que Shotter (2017) deseja destacar em seu texto, trazendo a compreensão de que: 1) ela é capaz de gerar momentos em comum e compartilhados com outros; 2) dar um senso mais profundo do modo de ser do outro, já que possibilita também sentirmos os movimentos interiores desse outro em nós mesmos; 3) nos lembrar de que somos seres únicos, convivendo e interagindo com o mundo; e 4) criar novos caminhos nas relações que estão imobilizadas de alguma forma.

Nossas “inquietudes internas”, ou seja, nossas respostas espontâneas podem ser guias de como agir perante o outro, e também mostrar dicas de como lidar com nossos sentimentos. Shotter (2017) provoca o leitor trazendo o entendimento de que explorar as possibilidades que essas inquietudes causam, pode nos levar para cenários mais interessantes nas relações.

O que o autor quer fazer o leitor refletir, ao meu ver, é que os sentidos práticos que damos ao mundo depende dos movimentos que ocorrem nesse encontro com o outro e sua alteridade, pois esta última, ao entrar em nós, é capaz de nos transformar em outro – talvez semelhante, mas talvez diferente da(s) pessoa(s) que está(ão) à volta. O que ele entende, muito influenciado por Wittgenstein (1980), é que as ações que escolhemos ter diante do outro depende mais da vontade, ou seja, do que nos toca e chama atenção, ao invés de algo que está apenas no âmbito do raciocínio lógico.

Acredito que Shotter tenha contribuído muito no sentido de entendermos, enquanto terapeutas principalmente, que o ambiente importa para essas respostas espontâneas e físicas. O que aprendemos (nas experiências, na teoria, na vida cotidiana) dentro de nossos contextos específicos de relação influencia a maneira como certas coisas parecerão mais importantes do que outras. Nosso corpo responde a todo momento ao mundo que nos circunda, mas ele está sempre enviesado de acordo com o que compreendemos ao longo da vida.

O que o autor nos convida é de estarmos atentos às respostas expressivas, vivas e espontâneas de nossos corpos, e que elas também nos orientam de como devemos agir: o que é propício ou não dentro de cada contexto específico de relação. Cada cliente com quem encontramos representa um universo totalmente novo e diferente, com uma alteridade única e que me coloca, enquanto terapeuta, em um novo processo de compreender o que cada coisa significa, e como meu corpo responde a isso.

Referência

SHOTTER, John. (2017). Momentos de referência comum na comunicação dialógica: uma base para a colaboração em contextos únicos. Nova Perspectiva Sistêmica, São Paulo, vol.26, no.57, p.9-20, Abril, 2017.

Letícia Oliveira Rodrigues
Aluna Colaboradora da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea.
Psicóloga clínica há 7 anos, formada pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia), possui Certificação Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas (ICCP) pelo Interfaci, Houston Galveston Institute e Taos Institute, e formações de base teórica pós-moderna e construcionista social.