A partir de uma perspectiva dialógica, Sales e Cabral (2019) realizam uma revisão bibliográfica para aprofundar no conceito do self dialógico na terapia familiar e de casal, destacando a importância da subjetividade do terapeuta nesse contexto. O texto explora como a prática terapêutica pode se beneficiar de uma abordagem que valoriza o diálogo e a construção conjunta de significados, onde destacou-se, para os autores, os estudos de Peter Rober, Jaakko Seikkula, Aarno Laitila, Mikhail Bakhtin, Hubert Hermans, Harlene Anderson e Harold Goolishian.
Pensar num modelo de terapia dialógico representa uma inovação significativa na história da terapia familiar, pois posiciona terapeutas e clientes como co-criadores do processo terapêutico, desafiando o modelo tradicional moderno de hierarquia na relação terapeuta-cliente. Dentro do Construcionismo Social, a abordagem colaborativa-dialógica representa uma das principais influências no movimento da pós-modernidade, e é nesse contexto que o self do terapeuta começa a emergir como elemento ativo no atendimento, acrescentando à conversa terapêutica uma forma mais colaborativa de construir novos sentidos. Essa abordagem valoriza a experiência do terapeuta, tanto como self profissional, mas também como self experienciador, ou seja, um ser que tem experiências, sente e vive o mundo ao seu redor e que, por esse motivo, apresenta em si uma multivocalidade, e faz parte de um contexto social que interfere nessas vozes internas.
Para este “modelo” de terapia (“modelo” aqui colocado entre aspas, pois não se trata de uma técnica ou modo de pensar estruturado, mas sim de uma postura e maneira de olhar o processo) é importante ressaltar o que se entende por diálogo, que é compreendido por uma dinâmica de múltiplas vozes que se chocam – concordando ou discordando – e gera um contexto de interação não apenas como uma troca de informações, mas como um espaço onde novos significados e sentidos são criados. A terapia é vista como um campo fértil para o desenvolvimento de um diálogo contínuo, onde não se tem previsão e controle do que ele pode gerar, e no qual cada participante influencia e é influenciado pela interação, promovendo a mudança e o crescimento mútuo entre clientes e terapeutas.
Outro apontamento feito pelos autores dentro do campo colaborativo e dialógico é uma crítica à postura do não saber. Eles vão argumentar que essa posição, se adotada de forma absoluta e literal, pode apresentar uma armadilha nos atendimentos. Como abordado anteriormente, o conhecimento do terapeuta é recurso valioso na construção do espaço terapêutico e dos novos sentidos criados, sendo fundamental que o profissional consiga transitar entre diferentes posições e vozes internas, ora sendo especialista no processo, ora como participante ativo desse contexto relacional, entendendo que cada família possui sua forma de dar sentido ao mundo ao seu redor.
Por fim, a revisão bibliográfica realizada por Sales e Cabral (2019) apresenta importantes estudos e desenvolvimentos na área do self dialógico, também oferecendo direcionamentos práticos para a atuação terapêutica. A ideia de um espaço dialógico, onde todos os participantes são reconhecidos como co-autores de suas histórias, desafia e transforma as concepções tradicionais de terapia, o que promove uma relação mais igualitária e dinâmica com as famílias e casais atendidos. O artigo apresentado pode inspirar terapeutas a explorar novas formas de interação, ao destacar a importância que o diálogo insere na construção de significados e promoção de mudanças na vida das pessoas. Dessa forma, a terapia se torna um espaço de co-criação, onde cada voz – inclusive a do terapeuta – contribui para a transformação e o crescimento mútuo.
Referência
CABRAL, Daniel Welton Arruda; SALES, Camila Maria Del Carlos Pinheiro. Contribuições e implicações da perspectiva dialógica: o self do(a) terapeuta na terapia familiar/de casal. Nova perspect. sist. [online]. 2019, vol.28, n.63, pp.21-41. ISSN 0104-7841.
