Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

O especialista relacional

Giovanna Cabral Doricci, Laura Ferreira Crovador, Pedro Pablo Sampaio Martins

Texto baseado no artigo “O especialista relacional na terapia familiar de fundamentação epistemológica construcionista social”, de Giovanna Cabral Doricci, Laura Ferreira Crovador e Pedro Pablo Sampaio Martins (2017), publicado na revista Nova Perspectiva Sistêmica (NPS)

Por Arthur Alves de Oliveira Silva

Em uma terapia familiar de sensibilidade construcionista social, o lugar de especialista ao qual o terapeuta foi atribuído historicamente foi progressivamente sendo transformado através de uma postura colaborativa e dialógica, produzindo uma relação menos hierárquica com as famílias atendidas. Troca-se o terapeuta pretensamente conhecedor da realidade transcendental, extremamente interventivo e verticalizado, por um terapeuta que assume uma postura de “não-saber” acerca daquilo que acessa através das sessões da família. Não se trata aqui de um “terapeuta que nada sabe”, mas sim, de um interesse e curiosidade genuínos no contato com os pacientes atendidos, ouvindo suas histórias, que elementos a compõem e como chegaram a ser quem são. Suas perguntas curiosas e autênticas possibilitam uma reflexão que movimenta a família dos lugares cristalizados dos quais estão acostumados.

No entanto, será que isso significa que o terapeuta não sabe de coisa nenhuma? Apresentar algum saber é possível, se seguirmos esse tipo de linha de pensamento? É a esta pergunta que o artigo “O especialista relacional na terapia familiar de fundamentação epistemológica construcionista social”, de Giovanna Cabral Doricci, Laura Ferreira Crovador e Pedro Pablo Sampaio Martins (2017), busca responder. Este artigo, publicado pela revista Nova Perspectiva Sistêmica, busca ampliar e aprofundar o debate acerca da “postura de não-saber”. Entendendo que o Construcionismo Social oferece muito mais uma postura relacional do que uma abordagem enrijecida e fixa, isso possibilita alguma flexibilidade até mesmo dentro dos seus próprios pressupostos. Observamos dois tipos de especialidades: os clientes e famílias são os especialistas do conteúdo, sabendo o que viveram e dando o tom e a narrativa para suas experiências, já os terapeutas são os especialistas do processo, responsáveis por deter um conhecimento que permite reflexão, criticidade e movimento na conversação. No entanto, nenhum deles sabe sozinho: todo saber é relacional, dependendo de cada enquadre e contexto.

Ora, é preciso então estar atento ao momento conversacional em que se situam. A postura de não-saber é importante como uma bússola inicial, mas se os clientes nos procuram justamente buscando entendimentos diferentes, olhares novos, conselhos e aprofundamentos até mesmo científicos, não responder a essa procura seria entendido, de acordo com os autores, como algo pouco produtivo – afinal, esta postura evitativa de “não devo responder a nada, pois não ‘devo’ saber nada” nos retiraria do momento relacional ao que fomos convidados a estar pelos clientes e suas famílias.

Esta leitura é fundamental para que não fiquemos tanto reféns de ideias fixas, cristalizadas e que nos encerram em dogmas pouco flexíveis. Podemos “saber” algo, sim, contanto que estejamos atentos e curiosos ao contexto em que eles se dão. Trata-se muito mais de uma responsividade do que de uma regra inegociável. Cada paciente é único, tem demandas particulares e pessoais, e busca em terapia um lugar produtivo e de cuidado personalizado – estarmos alinhados com essa ideia é o que há de mais frutífero ao longo do processo terapêutico!

Referência: 

Doricci, G. C., Crovador, L. F., & Martins, P. P. S. (2017). O especialista relacional na terapia familiar de fundamentação epistemológica construcionista social. Nova Perspectiva Sistêmica, 26(59), 37–51. Recuperado de https://www.revistanps.com.br/nps/article/view/315

Arthur Alves de Oliveira Silva

Aluno(a) Colaborador da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea

Psicólogo formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) desde 2023, com ênfase em Psicologia Clínica e Social