Baseado no texto “A Construção da Responsabilidade Relacional em Terapia Familiar” de Berenice Biagi e Emerson Rasera (2018)
Por Letícia Rodrigues
Biagi e Rasera (2018) no artigo “A Construção da Responsabilidade Relacional em Terapia Familiar” vão analisar como a responsabilidade relacional, no contexto da terapia familiar – através de um estudo de caso -, pode gerar uma mudança terapêutica a partir do método da poética social. Dentro da perspectiva pós-moderna, que foca na linguagem e na interação, privilegia-se a construção de sentidos construídos em terapia, a partir de uma postura reflexiva e colaborativa. Nesse contexto, o terapeuta é visto como um facilitador e colaborador na criação de novas narrativas e significados, auxiliando o cliente a explorar e redefinir seus problemas e sua identidade (Anderson, 2009; Guanaes, 2006).
No texto, os autores vão trazer o conceito de Responsabilidade Relacional, apoiados por autores como Gergen (2007) e Gergen e Mcnamee (1999). Esse conceito nos transporta para a ideia de como os problemas e os êxitos nas relações são fruto de uma construção e responsabilidade coletiva, desviando do foco individualista que tantas outras abordagens teóricas prévias frisaram. Pensar o indivíduo apenas como um ser com sua própria consciência privada e liberdade pessoal, é culpabilizá-lo, muitas vezes, por seus próprios fracassos ou dificuldades. O que a ideia da Responsabilidade Relacional propõe e dá apoio às teorias construcionistas sociais, é de que todo conhecimento é construído em conjunto, em relação e diálogo – e é através disso que podemos reconstruir novas formas mais potentes de se estar no mundo.
Existem diversos registros teóricos e do campo da saúde que aprofundam na temática da responsabilidade relacional, mas ainda há poucos no campo clínico. Biagi e Rasera (2018) vão, então, propor a apresentação de um caso de atendimento familiar onde a mudança ocorreu numa investigação do contexto microssocial de produção de sentidos, que está integrado a um contexto maior e macrossocial, onde tanto família e pesquisadores fazem parte. Esse é um importante recorte da pesquisa, por considerar que certos entendimentos no campo clínico só são possíveis considerando esses delineamentos sociais.
Através dessa postura, os autores vão destacar trechos importantes dos atendimentos e que detectam o processo de mudança familiar, para fazerem suas análises. Através da responsabilidade relacional, foi possível transformar a percepção do cuidado na família, passando de uma visão individualista para uma abordagem compartilhada e colaborativa. A terapia, assim, se tornou um espaço para a negociação de significados e a redefinição de papeis e responsabilidades dentro dessa família e da rede social envolvida.
Os autores detalham como a responsividade do terapeuta e a poética social ajudam a criar possibilidades de compreensão e ação. Nessa relação família-terapeuta, permitiu-se a construção de sentidos mais amplos e coletivos sobre o cuidado, enfatizando a importância da cooperação e da partilha de responsabilidades. A mudança foi observada como uma reconfiguração dos papeis familiares e uma reinvenção das práticas de cuidado, que anteriormente eram dominadas por uma perspectiva de responsabilidade individual e culpabilizante.
Em suma, o texto evidencia que a transformação na terapia familiar, mediada pela responsabilidade relacional, pode levar a novas formas de compreender e agir no mundo. A abordagem relacional não só desafiou a narrativa individualista dominante, mas também ofereceu um espaço para o desenvolvimento de novos sentidos e práticas compartilhadas, promovendo um entendimento mais amplo e cooperativo dos sentidos que a família tinha sobre sua relação. Assim, a terapia familiar se mostra um campo fértil para a aplicação do Construcionismo Social e da responsabilidade relacional, demonstrando o poder da linguagem e da interação na construção de novas realidades e significados.
BIAGI, Berenice Araújo Dantas De; RASERA, Emerson Fernando. A construção da responsabilidade relacional em terapia familiar. Pensando fam. [online]. 2018, vol.22, n.1, pp.3-17. ISSN 1679-494X.
Letícia Oliveira Rodrigues
Aluna Colaboradora da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea
Psicóloga clínica há 7 anos, formada pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia), possui Certificado Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas, e formações de base teórica pós-moderna e construcionista social.
