Baseado no texto “Explorações do ausente mas implícito” de Jill Freedman (2012)
Por Letícia Rodrigues
Jill Freedman (2012), em seu texto “Explorações do ausente mas implícito” traz reflexões sobre a prática terapêutica baseada nas ideias de Michael White, fundamentadas em conceitos de Gregory Bateson (1980) e Jacques Derrida (1978). Como White não pôde descrever completamente suas ideias antes de seu falecimento, a autora vai explorar possibilidades de como identificar e integrar o “ausente mas implícito” nas narrativas e práticas terapêuticas, destacando a importância de contrastar experiências problemáticas com aquelas que são valorizadas pelos indivíduos.
A ideia básica do conceito apresentado é que toda experiência problemática pode ser melhor compreendida quando vista em contraste com experiências significativas, ou seja, experiências que estão conectadas com os valores e aspirações dos clientes, casais e famílias que vão à terapia. Esse conjunto de características moldam a identidade e influenciam as ações desses sujeitos.
Ao invés de simplesmente pensar em qual é o oposto da queixa, como a autora acreditava previamente, ela percebe a partir de sua prática e propõe uma abordagem mais exploratória, onde terapeutas e clientes descobrem juntos o que é significativo para o indivíduo além do problema aparente.
A prática da “dupla escuta” se torna, então, essencial, pois envolve não apenas ouvir os problemas “superficiais” dos clientes, ou seja, o que eles narram no contexto terapêutico, mas também explorar quais são as histórias prévias e os valores que dão significado à vida e moldam suas ações. Uma conversa terapêutica direcionada a esses fins auxilia os indivíduos a reconectarem-se com suas histórias e versões preferidas, e a agir de acordo com o que tem sentido para as identidades pessoais.
O texto exemplifica essa forma de explorar as conversas terapêuticas com estudos de caso, que ilustram como as dinâmicas familiares e os relacionamentos podem ser transformados quando os terapeutas ajudam os clientes a nomear e investigar o que está ausente mas implícito. Essas conversas não apenas revelam tensões e contradições no âmbito pessoal das histórias, como também oferecem um espaço para que as pessoas reconheçam e enfrentem os discursos socioculturais dominantes que podem estar limitando e impedindo suas versões preferidas.
Em suma, a abordagem proposta pela autora não se limita a resolver o que está explícito no discurso dos clientes; ela busca restaurar o senso de significado e identidade pessoal, permitindo que os indivíduos vivam de maneira mais alinhada com seus valores, intenções e esperanças. Ao salientar a importância do que é valorizado e muitas vezes não expresso, Freedman (2012) nos faz refletir sobre uma postura terapêutica que aprecia a escuta atenta e cuidadosa, e que possa oferecer perguntas onde as histórias preferidas de cada indivíduo criem relevância em seus contextos relacionais.
FREEDMAN, Jill. Explorações do ausente mas implícito. Revista Internacional de Terapia Narrativa e Trabalho Comunitário. No. 4, 2012. Disponível em: www.dulwichcentre.com.au
Letícia Oliveira Rodrigues
Aluna Colaboradora da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea
Psicóloga clínica há 7 anos, formada pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia), possui Certificado Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas, e formações de base teórica pós-moderna e construcionista social.
