Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

Dinheiro e Conjugalidade: Posicionamentos e Estratégias Conjugais para Resolução de Dilemas Financeiros
(Cenci e Habigzang, 2019)

  

No artigo de Cenci e Habigzang (2019), as autoras vão apresentar uma pesquisa de análise qualitativa sobre como os casais enfrentam os conflitos relacionados às finanças, e quais recursos adotam ou entendem necessários para lidar com esses dilemas, a partir de pequenas histórias fictícias apresentadas a eles. Para isso, foram feitas entrevistas com seis casais (12 indivíduos), escolhidos a partir de uma outra pesquisa realizada anteriormente.

As autoras trazem alguns temas iniciais relevantes para pensarmos na dinâmica dos casais contemporâneos: diferenças econômicas existentes nas famílias de origem, infidelidade financeira e endividamento. A partir desses três pontos, elas traçaram essas pequenas histórias (chamadas de vinhetas) para que os casais participantes pudessem responder como avaliavam a situação fictícia, tendo em vista que esses tópicos normalmente participam dos dilemas conjugais. Por ser uma pesquisa de caráter exploratório e descritivo, as respostas foram analisadas e separadas por esses três eixos iniciais.

Nos resultados das entrevistas, foi observado que os padrões financeiros herdados das famílias de origem vão influenciar as atitudes em relação ao dinheiro e quanto às expectativas no casamento. Já sobre a infidelidade financeira, a vinheta foi desaprovada pela maioria dos cônjuges, sendo possível ser infiel apenas em momentos em que se ganhe alguma vantagem financeira e, mesmo assim, a maioria acredita que a verdade sempre vem à tona quanto a isso. No tópico do endividamento, por fim, as respostas apresentadas foram majoritariamente vistas como negativas, ou seja, o endividamento nunca é uma boa escolha para a saúde do casal, embora, em certas situações específicas, alguns participantes acreditassem ser necessário, devido ao dilema entre desejo e responsabilidade: o quanto do meu desejo deve ser tolhido em prol da responsabilidade financeira?

Um dos achados mais importantes do artigo, e que eu estou de acordo, foi o fato de quase todos os membros dos casais reconhecerem o diálogo como ferramenta essencial para a resolução de conflitos, mesmo quando se há dificuldades para ele acontecer. Pensar em diálogo como recurso transformador é parte importante das ideias construcionistas, e penso como esses resultados também podem ser refletidos a partir dessas lentes. Conforme Anderson (2016) “diálogo é um processo dinâmico e gerador, e a transformação é sua marca inerente”.

Outra contribuição valiosa do artigo foi ressaltar que mesmo para os casais que estão alinhados quanto aos valores financeiros e uso do dinheiro, também se faz necessário certos ajustes e negociações ao longo do tempo. Alinhamento de ideias não corresponde, necessariamente então, à estabilidade financeira, ainda mais se considerarmos como o macrossocial está sempre atravessando as dinâmicas relacionais de um casal: sejam as ideias patriarcais, a expectativa social quanto aos papeis de gênero ou mesmo o capitalismo que reforça o comportamento de consumo exacerbado. Citando Martins, McNamee e Guanaes-Lorenzi (2015, p. 10), “o sentido é negociado em cada momento interativo que, por sua vez, está sempre relacionado a discursos sociais mais amplos disponíveis na cultura”.

Por fim, os dados significativos do artigo contribuem para compreendermos como a saúde conjugal está atrelada à saúde financeira, sendo importante buscar qual é a identidade do casal que está sendo construída, já que ali se inicia um novo sistema familiar, diferenciado das histórias antepassadas, porém ainda influenciado pelos atravessamentos culturais e sociais.

 

Referências

ANDERSON, H. Algumas considerações sobre o convite ao diálogo. Nova Perspectiva Sistêmica, [S. l.], v. 25, n. 56, p. 49–54, 2016. Disponível em: https://www.revistanps.com.br/nps/article/view/240. Acesso em: 17 abr. 2025.

CENCI, Claudia Mara Bosetto; HABIGZANG, Luísa Fernanda. Dinheiro e conjugalidade: posicionamentos e estratégias conjugais para resolução de dilemas financeiros. Gerais, Rev. Interinst. Psicol.,  Belo Horizonte ,  v. 12, n. 1, p. 159-174,  jun.  2019 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1983-82202019000100012&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  17  abr.  2025.

MARTINS, P. P. S.; MCNAMEE, S.; GUANAES-LORENZI, C. Família como realização discursiva: uma explicação relacional. Nova Perspectiva Sistêmica, [S. l.], v. 24, n. 52, p. 9–24, 2015. Disponível em: https://www.revistanps.com.br/nps/article/view/155. Acesso em: 17 abr. 2025.

Letícia Oliveira Rodrigues

Aluna Colaboradora da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea.

Psicóloga clínica há 7 anos, formada pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia), possui Certificado Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas (ICCP) pelo INTERFACI, e formações de base teórica pós-moderna e construcionista social.