Consciência relacional e práticas conversacionais de Johnella Bird Ottar Ness & Tom Strong
Texto baseado no artigo “Relational consciousness and the conversational practices of Johnella Bird”, de Ottar Nesse e Tom Strong (2011)
Numa prática de orientação construcionista social, temos uma postura ética que compreende que não existe jeito “certo” ou “errado” de viver ou comunicar as nossas experiências – justamente reside nessa alteridade nossa capacidade humana! Somos capazes de acessar esses entendimentos singulares através de práticas conversacionais, seja no cotidiano, seja no contexto da clínica. No artigo “Relational consciousness and the conversational practices of Johnella Bird”, de Ottar Nesse e Tom Strong, publicado em 2011, é discutido o conceito de “consciência relacional”, cunhado pela terapeuta neozelandesa Johnella Bird. O texto é integralmente em inglês, ainda sem tradução para o português.
Este conceito diz respeito a uma compreensão de que palavras e sentidos são negociados em contextos de relacionamento – ou seja, as palavras não são definidas apenas por aquilo que está no dicionário, mas também pelo contexto em que estão inseridos, variando de acordo com o lugar, pessoa e momento. O objetivo de Bird é produzir junto aos clientes, em especial casais, por meio de suas práticas conversacionais, essa consciência relacional, a partir das quais formas diferentes de entendimento e compreensão formas negociadas relacionalmente possam ser construídas.
Acessar esse novo entendimento sobre a linguagem foi fundamental para a minha formação como terapeuta de casal e família. Muitas vezes, somos atravessados por uma urgência pessoal de encontrar um consenso, ou buscar uma solução prática para o que é colocado nos nossos desafios clínicos. A partir desse novo entendimento de Johnella Bird, compreendo agora que nosso objetivo não é a concordância, o consenso; é justamente aprofundar na história singular para que as pessoas consigam encontrar uma maneira de caminhar juntas, acessando sentidos que podem às vezes parecer ocultos ou subentendidos.
Os autores utilizam uma metáfora de “sentidos fossilizados” (p. 86), para quando alguns entendimentos sobre o mundo ou sobre as relações parecem recair, não-intencionalmente, num padrão de interação que não é interrogado ou questionado. A função do terapeuta está justamente aí, em convidar os envolvidos a se voltarem para esses sentidos cristalizados e tomados como dados, muito além de apenas chegar num consenso ou uma decisão que agrade a todos.
Recomendo a leitura, mesmo que em língua inglesa. O artigo é pioneiro ao trazer uma autora pouco conhecida que nos convida a negociar posições discursivas conflitantes entre parceiros em um relacionamento que muitas vezes parece paralisado e sem saída.
Referência:
Ness, O., & Strong, T. (2011). Relational consciousness and the conversational practices of Johnella Bird. Journal of Family Therapy, 36(1), 81-102. https://doi.org/10.1111/j.1467-6427.2011.00567.x