Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

Rigor e legitimidade em pesquisa – Marisa Japur

Texto baseado na carta Marisa Japur à Helena Maffei a respeito de um parecer de artigo para a revista Nova Perspectiva Sistêmica (NPS).

Por Arthur Alves de Oliveira Silva

Pensar pesquisa e investigação dentro de abordagens pós-modernas, num paradigma de conhecimento contemporâneo, pode ser muito desafiador. Isso porque as mentalidades do que significa produção de conhecimento ainda coexistem com ideais modernistas de rigor metodológico quantitativo e cartesiano. Nesse contexto, revistas e periódicos de Psicologia e Terapia Familiar têm desafios na hora de darem pareceres técnicos sobre artigos e pesquisas. O texto aqui apresentado é uma reflexão de Marisa Japur, professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), sobre sua experiência ao elaborar um parecer para um artigo submetido à Revista Nova Perspectiva Sistêmica (NPS). A autora compartilha suas inquietações e posicionamentos sobre a produção e a legitimação do conhecimento, especialmente no contexto de periódicos que não têm origem acadêmica num contexto formalmente alinhado à uma pós-graduação. 

O texto, de apenas 3 páginas e num formato de carta, inicia com a autora expressando sua surpresa diante da dificuldade em elaborar um parecer, refletindo sobre o papel do autor na construção do conhecimento e a importância de considerar o público-alvo. Essa dificuldade é vista como um convite a uma reflexão mais profunda sobre práticas de conhecimento e suas interpretações dentro de diferentes contextos culturais. Japur entende que a revista científica é um espaço privilegiado (ou seja, socialmente valorizado por um determinado grupo social) para o registro e a divulgação de novos conhecimentos, cuja legitimidade está ancorada na ideia de rigor no modo de produção deste conhecimento, sempre situado de acordo com a validação de determinada comunidade.

Marisa Japur sugere uma nova perspectiva sobre como legitimamos saberes que não necessariamente seguem as normas acadêmicas tradicionais, entendendo que a própria ideia de legitimidade do saber também é negociada – um pressuposto importante do Construcionismo Social. No entanto, a proposta de um rigor “flexível” pode gerar controvérsias, pois desafia convenções já estabelecidas e pode ser vista como um risco à padronização necessária em certos contextos acadêmicos. A autora se mostra consciente dessa tensão e busca um equilíbrio, valorizando a diversidade de práticas discursivas e a importância do diálogo.
Entendo que esses chamados “riscos”, no entanto, devem ser trabalhados numa postura dialógica de corresponsabilidade. O rigor aqui não se trata de apenas uma formalidade de seguir uma estrutura modernista de produção de conhecimento, mas sim em construir um texto que dê visibilidade ao como o autor chega a afirmar o que ele afirma – ou seja, através da explicitação dos passos da pesquisa, mais do que uma legitimidade dada a priori por um estatuto de verdade ou status social.

Apresentar esta carta como forma de resenha é quase uma metalinguagem: apesar de não ser um artigo científico a ser resenhado, acredito que falar sobre essa carta também é precioso para produzir reflexões sobre o que significa pesquisa. Recomendo a leitura, mesmo que informal!

 

Referência:

Japur, M. Carta a Helena Maffei a respeito de parecer de artigo para Nova Perspectiva Sistêmica (disponível em pdf)