Texto baseado no artigo “Exercícios para manter sua mente sistêmica” de Gianfranco Cecchin, (1991).
Por Vanessa Pereira de Lima
O artigo de Gianfranco Cecchin, “Exercícios para manter sua mente sistêmica”, originalmente publicado em inglês em 1991 e traduzido para o português na Nova Perspectiva Sistêmica em 1997, apresenta importantes reflexões para profissionais que atuam na vertente do construcionismo social, sobretudo, na terapia sistêmica familiar, sendo uma pista preciosa para os terapeutas. O texto apresenta a evolução dessa terapia a partir da lente do construcionismo, saindo do pensamento cibernético, passeando pela metáfora dos jogos e batalhas, pelos discursos e produções de poder até chegar na vertente construtivista. Suas contribuições se deram muito em decorrência de sua integração ao Grupo de Milão, onde teve notável participação. Para Cecchin, não pensamos de forma sistêmica, contudo, é possível considerar a maneira como pensamos ao praticar exercícios mentais. Ele desenvolve sua teoria de ser possível aquecer nossas ideias assim como nos aquecemos antes de praticar uma atividade física.
A questão central do artigo é pôr em análise a ideia de causalidade, de linearidade, como se a vida não fosse permeada pelos desvios, por rotas inesperadas e imprevisíveis. Como terapeutas, precisamos estar atentos quanto a isso, pois qualquer prática ultrajada de descuido ou mesmo padrões rígidos pode incorrer na culpabilização, ou patologização do cliente. Com isso, Cecchin propôs alguns exercícios aos alunos em formação ao atender uma família. Uma sugestão foi evitar expressões como “concordo” ou “discordo”. Tais posicionamentos podem refletir em afirmação ou negação, fazendo com que surjam movimentos de competição entre os membros da família. Outra expressão a ser evitada é o uso do verbo ser. O verbo ser dá ideia de permanência, assim, quando há um incômodo da equipe com algum membro da família, Cecchin propôs que cada membro da equipe encontrasse uma culpa em algum membro da família. Esse exercício reflete que, se é possível culpar a todos, também é possível não culpar ninguém. Isso nos leva à circularidade que possibilita ao terapeuta investigar diferentes conexões em um mesmo sistema.
Outro ponto marcante do texto é a reflexão do terapeuta. Cecchin apresenta uma discussão importantíssima sobre neutralidade que, para ele, não está relacionada com a ausência de opinião, mas com a potencialidade de observar os diferentes pontos de vista, mas sem se capturar por nenhum deles. Dessa maneira, evitam-se imposições pessoais ao mesmo tempo, enfatiza a necessidade de autorreflexão constante por parte do terapeuta. Cecchin salienta que um bom terapeuta é aquele que é irreverente, curioso e questionador sobre nossas crenças e valores. Ser irreverente é ser estrategista, alguém que coloca em rota de fuga as certezas para entrar nos caminhos móveis. Foi nesse território móvel que o modelo sistêmico foi ganhando novos contornos.
O artigo é enriquecido com exemplos práticos e reflexões teóricas sobre a prática sistêmica, que não se trata apenas de uma técnica, mas uma forma de estar no mundo, de olhar para as relações de uma forma empática e colaborativa. Cecchin nos lembra que o papel do terapeuta não é oferecer respostas, mas facilitar um processo de descobertas, conhecimento e afetos que emergem do próprio sistema em análise. Uma contribuição importante foi o conceito de poder proposto por Bateson. Para este pensador, o poder é uma construção que cada vez mais afirmado, mas as pessoas acreditam na sua existência. Assim, sustentação do poder estaria não pela correlação somente de forças, mas dos papéis que cada um assume na relação. Esse pensamento abriu caminhos para a terapia, que passou a ampliar o debate de criar outros sentidos que não fossem o poder. Neste sentido, passamos a olhar mais para nós enquanto terapeutas e em nossa autorreflexão, haja vista que cada terapeuta tem “seu jogo”, isto é, a maneira de se fazer perguntas, de uma postura aberta ao diálogo, uma escuta ativa que faz com que cada processo seja singular.
Em resumo, o texto de Cecchin é uma pista, um pouso, um referencial que contribui com a fluidez e movimentos da prática sistêmica. Ele apresenta o terapeuta como co-construtor, ou seja, o terapeuta como sendo um dos atores na conversação terapêutica. Para concluir, Cecchin deixa sua última pista preciosa — a irreverência. Ser um terapeuta irreverente é ser subversivo a qualquer verdade cristalizada, e sendo inspirada por sua autoprescrição, que não por mais que dois anos esses escritos sejam outros.
Referência
CECCHIN, Gianfranco. Exercícios para manter sua mente sistêmica. Nova perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, ano VI, n. 10, p.6-14, 1997. Original inglês, 1991.
Vanessa Pereira de Lima
Aluna colaboradora da 4ª turma do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea
Psicóloga Social
Doutora em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Subjetividades e Instituições em Dobras (GEPSID/UERJ)
