Texto baseado no artigo “Narrativa, pós-estruturalismo, e Justiça Social: Práticas na Terapia Narrativa” de Gene Combs e Jill Freedman (2012).
Por Vanessa Pereira de Lima
O artigo trata de uma revisão da prática da Terapia Narrativa (TN) na atualidade e algumas pistas para um trabalho comprometido ético-político na perspectiva da justiça social. Ele aborda os primórdios da TN a partir do pós-estruturalismo e da ciência social com ênfase no conceito de poder de Michel Foucault e da metáfora narrativa. Assim, é abordado a TN na perspectiva dos discursos e práticas e como nós, terapeutas, podemos nos inserir neste campo.
O texto mostra como as histórias das pessoas definem suas identidades e o poder que define quais histórias serão contadas e outras não. Isso revela como as relações de poder criam condições de existência. A posição do terapeuta não é a de disjunção, mas a de conjunção e de facilitação para que o cliente possa narrar suas histórias e experiências a partir daquilo que o convoca a contar. O foco está em oferecer novas direções para a história do problema, sair de um único ponto de vista para olhar de outras posições. Quando se olha apenas para o lado do problema, é comum surgir o sentimento de culpa, como se houvesse apenas uma saída. Esse sentimento costuma levar as pessoas para a terapia com o intuito do terapeuta achar a resposta e tudo será resolvido, contudo, na TN o terapeuta não se obstina a resolvê-lo e sim a mudar o foco de como se olha para ele.
Mas, para chegarmos na TN como terapeutas narrativos na contemporaneidade, é importante ressaltar que a abordagem pós-estruturalista foi um divisor de águas para pensarmos nas multiplicidades da terapia de família. Diferente do estruturalismo que condiciona a vida a certos saberes dominantes, o pós-estruturalismo compreende que os sistemas sociais são complexos, contextualizados e abrangentes. Mesmo os terapeutas podem ser capturados por esses saberem em formas de discursos dominantes em sua prática clínica. Uma pista para os terapeutas é o trabalho colaborativo, pois leva em consideração que o cliente é agente de sua própria história.
No campo da justiça social, o terapeuta narrativo pode contribuir ao olhar o problema não isolado, mas parte de uma estrutura social mais ampla. Sair do problema é uma maneira de compreender que ele é forjado por relações estruturais de poder, logo, não podemos individualizá-lo. Um exemplo disso é quando uma mulher que é mãe perde seu filho para a violência de Estado em uma comunidade e se engaja coletivamente na luta contra a letalidade do Estado. No encontro com outras mulheres que passaram pela mesma situação, constituem um grupo com o propósito compartilhado para pensar estratégias de cuidado e busca por justiça, memória e reparação. Quando essas mulheres se encontram nos motivos que as levaram a se juntar, ocorre um fenômeno que elas denominaram como “do luto à luta”. Aqui, podemos ver uma contranarrativa ao poder dominante, haja vista o rompimento com a política de morte que levaram seus filhos para uma política que preserve a vida.
Do ponto de vista da metáfora narrativa, o exemplo acima nos mostra como criamos significados de eventos por meio de histórias que nos atravessam. Essas histórias são multifacetadas. Como são multifacetadas, não há uma verdade única e é aí que o terapeuta narrativo se deleita. Nas versões, nas histórias alternativas, sai do foco do problema para em como narramos nossas histórias, o que priorizamos, recontamos e o que surge de novo. O trabalho do terapeuta é apoiar as pessoas a se relacionarem de forma mais assertiva com os problemas e não as entender como problemáticas que precisam ser mudadas. Além disso, o texto aborda as contribuições de White (2012) sobre o ausente, mas implícito. Para este autor, qualquer experiência que atribuímos significados está relacionada às outras experiências em um conjunto de experiências conforme os contrastes entre o que elegemos ou não na história narrada. Para o terapeuta, trabalhar atentamente a dupla escuta – aquilo que se tem como problema e aquilo que se almeja alcançar – com foco nas potencialidades e não no problema em si, convida as pessoas a olharem por outro prisma, o que interessa é a prática em vez de técnicas, é a experiência que se cria a partir das perguntas que fazemos.
Por fim, a TN foca na disjunção de que é possível trabalhar com as pessoas e não com o problema. O problema faz parte da vida, mas não é a vida em si, eles são externos e não internos. Compreender que fazemos parte de uma macroestrutura e que esta, por sua vez, é forjada por discursos dominantes possibilita que a TN olhe para o problema como uma dimensão estrutural e não individualizante. As pessoas fazem parte de uma realidade social, política e desigual, situações-problemas fazem parte desta estrutura, assim, no contexto terapêutico, isso irá aparecer, muitas vezes como se o problema fosse individual. Tomar uma posição ativa, separar as pessoas de seus problemas, apostar nas conversas externalizantes são pistas para uma condução ética e política na TN.
Referência:
Combs, G., & Freedman, J. (2012). Narrativa, Pós-estruturalismo e Justiça Social: Práticas Atuais em Terapia Narrativa. The Counseling Psychologist, 40 (7), 1033-1060. https://doi.org/10.1177/0011000012460662
Vanessa Pereira de Lima
Aluna colaboradora da 4ª turma do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea
Psicóloga Social
Doutora em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Subjetividades e Instituições em Dobras (GEPSID/UERJ)
