Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

“O uso de metáforas em terapia narrativa”
Paschoal & Grandesso

 

Texto baseado no artigo “O uso de metáforas em terapia narrativa: facilitando a construção de novos significados”, de Valéria Nicolau Paschoal e Marilene Grandesso (2017)

Por Arthur Alves de Oliveira Silva

Durante nossa formação no ensino fundamental e médio, tivemos acesso a uma figura de linguagem chamada “metáfora”: basicamente, é um recurso utilizado para comparar dois conceitos sem se utilizar de expressões que indiquem que uma comparação está sendo feita. Ou seja, “ele é um leão” é uma metáfora, enquanto “ele é como um leão” seria uma comparação propriamente dita. No entanto, essas figuras de linguagem permeiam nosso imaginário sociolinguístico com muito mais naturalidade do que nesses termos teóricos. Na clínica isso não é diferente. Pensando numa terapia de abordagem pós-moderna e sensibilidade construcionista social, entendemos que a linguagem constrói realidades e sentidos. Como uma metáfora poderia figurar como ferramenta nesse contexto?

O artigo “O uso de metáforas em terapia narrativa: facilitando a construção de novos significados”, de Valéria Nicolau Paschoal e Marilene Grandesso (2017), trata justamente desse assunto. Entendendo que as conversações terapêuticas objetivam transformação e ampliação de sentidos, o uso da metáfora é associado a perspectivas de trabalho da Terapia Narrativa. Neste aspecto, metáforas seriam bons caminhos para fazer exercícios importantes dentro da Terapia Narrativa, como conversas de externalização (ver o problema como distinto da pessoa), conversas de reautoria (buscando outras conclusões sobre as identidades), conversas de remembrança (reintegrar memórias, pessoas e lugares na história de vida do cliente), assim como práticas narrativas coletivas ampliadas.

Utilizar-se de uma metáfora como forma de reposicionar o cliente diante da demanda que traz com tanto sofrimento pode ser um recurso muito importante para emancipar o paciente da história saturada pelo problema. Mas como isso se daria na prática clínica propriamente dita? As autoras trazem justamente essa questão para sua metodologia de investigação, indo atrás de profissionais da psicologia que trabalham com metáforas na Terapia Narrativa. Ouvir dos próprios terapeutas como isso se dá na sua prática clínica permite que os leitores acessem diretamente como isso produz efeitos no cotidiano do trabalho, de forma aberta e integral.

Várias unidades de sentido foram possíveis de serem analisadas nessa investigação, sendo elas a facilitação da conversa terapêutica por meio de metáforas; a ludicidade que a metáfora possibilite em conversas difíceis; a possibilidade de nomeação das experiências por formas menos teóricas e engessadas; a compreensão do próprio contexto do cliente, de forma que a metáfora faça sentido para este; a facilitação da mudança e da autonomia na reautoria das histórias; e, por fim, como a postura terapêutica é fundamental nessa forma de trabalho. Cada um desses tópicos foram explorados de forma muito ampla e generosa pelas autoras, sendo possível compreender como nosso trabalho pode se beneficiar de uma criatividade e espontaneidade característica de uma responsividade relacional.

Sair das “caixinhas” de palavras formais e diagnósticos, “desembrulhando” cada uma das palavras que são utilizadas pelos clientes, utilizando de uma “caixa de ferramentas” clínica são alguns dos pontos que carregarei, agora em forma de metáfora, após a leitura desse artigo!

Referência:

Paschoal, V. N., & Grandesso, M. (2016). O USO DE METÁFORAS EM TERAPIA NARRATIVA: FACILITANDO A CONSTRUÇÃO DE NOVOS SIGNIFICADOS. Nova Perspectiva Sistêmica, 23(48), 24–43. Recuperado de https://www.revistanps.com.br/nps/article/view/48

Arthur Alves de Oliveira Silva

Aluno(a) Colaborador da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea

Psicólogo formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) desde 2023, com ênfase em Psicologia Clínica e Social