Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

“O que é terapia narrativa? Uma introdução de fácil leitura

Alice Morgan”

Texto baseado no artigo “O que é terapia narrativa? Uma introdução de fácil leitura” de Alice Morgan (2007).

Por Vanessa Pereira de Lima

O texto em tela faz parte do livro “O que é terapia narrativa? Uma introdução de fácil leitura”, de 2007, escrito por Alice Morgan, terapeuta narrativa de família em Melbourne, Austrália, traz importantes perspectivas que devemos levar em consideração quando se trata da terapia narrativa. São muitos os olhares destinados para a terapia narrativa que vai compondo sua história e desfazendo outras. Por mais que seus conceitos sejam múltiplos, uma coisa é certa na terapia narrativa: nela, o princípio é seguir as pistas do cliente, ele, somente ele, pode narrar suas histórias. Para isso, como princípio da terapia narrativa, é preciso manter uma espécie de curiosidade, de fazer perguntas sem julgamentos anteriores, apostar no grau de abertura que se estabelece no processo terapêutico no qual as direções são múltiplas e em variação, o que interessa é o processo, já que o fim não é um objetivo preestabelecido, mas um caminho que se faz ao caminhar.  

As formas narrativas no processo terapêutico de forma alguma se pretende uma receita ou prescrição, mas possibilidades diversas para a conversação. No campo da terapia narrativa não há um caminho único e linear, mas saídas múltiplas que vão ganhando contorno conforme a relação terapêutica se estabelece. Nessa relação, é preciso estar aberto ao desconhecido, uma vez que não sabemos de antemão aonde vamos chegar. Nesse processo, a terapia narrativa tem como guia a própria pessoa que está se consultando, ela é a especialista de sua vida. Mas o que isso significa? Na terapia narrativa a história de vida contada faz parte das experiências humanas nas quais atribuímos significados e memórias afetivas a partir de eventos ocorridos. No entanto, quando narramos uma história, selecionamos o que contar, o que significa que nessa seleção, algumas coisas ficam de fora em detrimento de outras, isso consiste em um enredo dominante.

Quando uma história dominante ganha consistência, uma atenção precisa entrar em cena. É preciso, enquanto terapeutas narrativos, considerar que todo significado que atribuímos não são neutros, ao contrário, criam efeitos, por vezes ambíguo ou contraditório, que demonstram as contingências e a disrupção da vida. Esse movimento amplia o campo de possibilidades, de mudanças e de abertura. Na terapia narrativa, há histórias dominantes e alternativas, esta última, leva em consideração que não há história única sobre uma situação, mas uma vista do ponto que contamos. Outra pessoa que conhece a sua história pode ter outro ponto de vista e são nesses paradoxos, entre nossa relação enquanto indivíduos e sociedade, que construímos nossa noção de eu.

 Quando uma pessoa busca terapia, ela vem carregada de significados e atributos sobre os eventos que a levaram a esse espaço. O desafio na terapia narrativa é trabalhar no discurso dominante e abrir-se para os discursos alternativos. O que contamos e o que não contamos na terapia? É comum enquanto terapeutas encontrarmos na clínica o problema trazido pelo cliente e os significados atribuídos a ele. No entanto, quando já tem um significado construído sobre determinado fenômeno, a chamada descrição estreita, faz com que o processo fique truncado e com pouco espaço para mudanças significativas. Cabe também ao terapeuta se atentar para não incorrer em uma descrição estreita sobre seu cliente o levando a conclusões precipitadas e fechadas. Muitas vezes, essas conclusões são forjadas por relações de poder e controle que submetem a pessoa a um lugar de sujeição. Então, quando o terapeuta narrativo se depara com conclusões estreitas, uma saída é buscar histórias alternativas, criar condições que libertem o cliente do foco no problema.

Para concluir, o terapeuta narrativo se interessa em co-criar com o cliente histórias possíveis a fim de sair do foco no problema para as histórias alternativas. Isso enriquece o campo de possibilidades e entrelaça as histórias do cliente com a história de outras pessoas em um processo relacional, situado, localizado e contextualizado.

Referência:

O que é terapia narrativa? Uma introdução de fácil leitura – Alice Morgan –Eds.  Dulwich Center – Centro de Estudos e Práticas Narrativas Porto Alegre – reciclandomentes.org / curso on-line gratuito

Vanessa Pereira de Lima

Aluna colaboradora da 4ª turma do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea

Psicóloga Social

Doutora em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Subjetividades e Instituições em Dobras (GEPSID/UERJ)