Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

“Mudança em Psicoterapia de grupo”

Baseado no texto “Mudança em Psicoterapia de grupo: reflexões a partir da Terapia Narrativa” de Rafael Santos Carrijo e Emerson Fernando Rasera (2010)

Por Letícia Rodrigues

 

No artigo de Carrijo e Rasera (2010), é possível refletir sobre como a prática grupal de psicoterapia, a partir de uma abordagem narrativa, possibilita a mudança de um participante desse grupo. Para isso, os autores realizam um estudo de caso e nos mostram a postura reflexiva que essa prática terapêutica propõe, auxiliando na transformação do modo de descrever o mundo e as experiências. A partir dos conceitos desenvolvidos por autores como White e Epston (1990) e Gergen (1997), a terapia narrativa se fundamenta na ideia de que nossas experiências e identidades são moldadas pelas histórias que contamos sobre nós mesmos, as quais são influenciadas pelo contexto social e histórico em que estamos inseridos.

Um dos principais pontos da terapia narrativa é a “externalização do problema”, uma forma de conversa onde o terapeuta ajuda o cliente a separar sua identidade do problema enfrentado, facilitando que uma nova narrativa surja nesse contexto dialógico. Essa abordagem não só desconstroi narrativas limitantes como também possibilita a criação de novas histórias que permitem ao indivíduo se perceber como agente ativo na construção de sua vida.

Além disso, a ênfase na polivocalidade das narrativas (Epston, White & Murray, 1998) sugere que cada pessoa pode ter múltiplas maneiras de contar sua história e que essas possibilidades são infinitas, revelando contradições e ambiguidades que enriquecem a compreensão do self e das relações interpessoais.

Ao mesmo tempo, essas mesmas lacunas que a narração de histórias proporciona, podem não se conectar com a narrativa predominante que o sujeito conta de si, relevando os eventos extraordinários, ou seja, que estão fora da história principal. Esses eventos permitem a construção de um olhar ampliado sobre o problema, o que pode ser crucial no processo terapêutico, pois amplia as possibilidades de significação e ressignificação das experiências vividas.

O artigo também aborda o papel das práticas grupais na terapia narrativa, trazendo a história de um participante que se destaca no grupo terapêutico e o uso de intervenções que foram recortadas para melhor visualização: a) identificação de  acontecimento extraordinário passado; b) identificação de acontecimento extraordinário presente; c) externalização do problema; e d) fortalecimento da narrativa de enfrentamento.

O contexto do grupo pôde fortalecer as novas narrativas individuais desse participante, ao legitimar e ampliar suas histórias de enfrentamento. A mudança pôde acontecer não só pela habilidade dos terapeutas em construir boas conversas e se engajar nelas, mas também pela validação dessa mudança pelos outros participantes e pela família do indivíduo.

Contudo, os autores também reconhecem um desafio significativo dessa prática grupal: equilibrar a tensão indivíduo-grupo, para que não se promova um contexto individualista dentro da terapia. Cada participante traz consigo uma narrativa e uma contribuição diferente para o grupo, alguns sendo mais participativos que outros na conversa. O cuidado se torna necessário, então, para que todas as vozes e narrativas se tornem importantes dentro desse contexto.

Em síntese, o texto oferece uma visão abrangente e crítica da terapia narrativa na prática grupal, enfatizando sua capacidade de promover mudanças significativas através da reconstrução de histórias, e também de propiciar um local de reflexão sobre os discursos normalizadores e opressivos sustentados pelo contexto macrossocial. Ao valorizar a criatividade e sensibilidade na prática clínica, os autores convidam os terapeutas a adotar uma postura reflexiva e inovadora na construção de sentidos e na promoção do bem-estar dos indivíduos.

CARRIJO, Rafael Santos e  RASERA, Emerson Fernando. Mudança em psicoterapia de grupo: reflexões a partir da terapia narrativa. Psicol. clin. [online]. 2010, vol.22, n.1, pp.125-140. ISSN 0103-5665.

Letícia Oliveira Rodrigues

Aluna Colaboradora da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea

Psicóloga clínica há 7 anos, formada pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia), possui Certificado Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas, e formações de base teórica pós-moderna e construcionista social.