por Luca Lima
A seguinte resenha propõe a discussão feita pela Profª Drª Rosana Rapizo, professora adjunta do departamento de Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em um capítulo de sua tese de doutorado, intitulado “O indivíduo: centro organizador da vida social”.
Rapizo é doutora em Psicologia Social, atuando principalmente com os temas de famílias contemporâneas, novas conjugalidades, lugar do terapeuta e intervenções em terapia de família. No capítulo em questão de sua tese, a autora aborda diferentes perspectivas ocidentais da formação do indivíduo em sociedade, questionando o seu lugar a partir principalmente de críticas pós-modernas acerca da noção de quem é esse indivíduo. A autora discorre sobre a construção do pensamento acerca das noções de indivíduo, self e individualismo, tendo como referência diferentes pessoas autoras do construcionismo social.
No decorrer de sua escrita, Rapizo dialoga entre teorias de forma a construir uma narrativa que situe a pessoa leitora nos questionamentos sobre a forma como o indivíduo se insere socialmente e de que maneira as suas ações e modo de existir, são atravessados pela influências do coletivo, por aquilo que é vivido em sociedade. Um ponto importante levantado pela autora é sobre a visão que temos sobre esse indivíduo, que é produzida a partir de um recorte social específico do homem cis, branco e heterossexual, pertencente à classes sociais domentantes. Os grupos sociais distantes dessa concepção de indivíduo, mulheres, população negra e comunidade LGBTQIAPN+, são transformados em “outros”, que são automaticamente postos à serviço do grupo dominante.
Essa noção dialoga com um dos conceitos de individualismo citados pela autora, o identificando como um modo de vida ligado ao capitalismo e a sociedade industrial, uma ideologia que possui como referência a civilização ocidental. Há um sujeito entendido como livre, mesmo em relação à sociedade da qual faz parte, com direito de escolha e com liberdade em suas ações – sendo esse sujeito um indivíduo pertencente ao grupo social dominante.
A autora segue a discussão apresentando críticas à noção de indivíduo e de formação do self, se referenciando nas ideias de autores como Stuart Hall, que fala sobre uma crise de identidades na pós-modernidade. Em uma sociedade atravessada pela globalização, onde fronteiras físicas não mais impossibilitam um contato e trocas entre diferentes culturas, entendimentos de formação social e modos de existir. Não há como pensar em um identidade fixa, com uma ancoragem no meio social onde está inserido; começamos a compreender um self fluido e adaptável, que é construído a partir das relações que um indivíduo estabelece ao longo de sua vida.
O texto convida a pessoa leitora a entender as relações sociais como base da construção do self, a partir das experiências e narrativas de cada sujeito sob a luz das propostas construcionistas. Rapizo constroi assim em sua escrita uma perspectiva de self relacional, atravessado pelas constantes trocas tidas por um indivíduo e a forma como ele se relaciona com o meio inserido a partir de sua própria linguagem e experiências.
Referências
RAPIZO, Rosana. Entre Laços e Nós. 2013. Tese (Doutorado) – Instituto de Psicologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.
Lucas Renan Ferreira Lima – Aluno Colaborador da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea
Psicólogo clínico e social formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e instrutor de Kemetic Yoga pela instituição Yoga Skills: School of Kemetic Yoga (Chicago/USA). Pesquisador independente de relações étnico-raciais, racismo, masculinidades negras e saúde mental a partir de uma visão africano-diaspórica direcionada. Atualmente atuando com direitos humanos e violência de Estado em diálogo com a política de segurança pública.
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