Nucleo Contemporâneo de Psicoterapia

Narrativa e Self: alguns dilemas pós-modernos da psicoterapia Harold Goolishian

Texto baseado no artigo “Narrativa e self: alguns dilemas pós-modernos da psicoterapia” de Harold Goolishian (1996) 

Por Vanessa Pereira de Lima

 

O capítulo “Narrativa e self: alguns dilemas pós-modernos da psicoterapia”, de Harold Goolishian, psicólogo familiar e pioneiro do movimento construcionista social em terapia familiar, foi publicado no livro Novos paradigmas, cultura e subjetividade, aponta questões importantes para os conceitos de narrativa e self. O texto parte da problemática de se responder a seguinte pergunta: o que é o self? O self, definido como o si mesmo, foi e segue como um conceito que tem múltiplas saídas nos campos da psicologia e da psicoterapia. Esses diferentes olhares para o self partem da metafísica, campo que o têm estudado por meios quantificáveis e observáveis e epistemológico, que aponta a relação da noção de si mesmo através da própria pessoa, mas também na relação com o outro.

No sentido metafísico, a pergunta o que é o self tenta explicar algo que é universal e inerente à humanidade. Essa noção remete à ideia de uma substância, algo que é essencialista, logo, precisa ser estudado. Esse caminho conduziu algumas correntes da psicoterapia, entre elas a fenomenologia, a humanista e a psicanálise. Essas correntes concebem o si mesmo como uma entidade abstrata, chamada consciência. Essa noção de consciência está condicionada à ideia de responsabilidade e escolhas. Para Goolishian, essa concepção pode ser chamada de self encapsulado.

Assim, o self encapsulado está ligado à relação mente versus corpo. Esse dualismo gerou uma série de perguntas que passaram a ser respondidas por meio de observação, de questionários, de testes psicométricos, entre outros meios de verificação da mente e comportamento. O sistema nervoso central era comparado ao computador que por meio de programas internos, emitem estímulos que geram uma resposta. Essa concepção germinou em correntes como a teoria da aprendizagem social, no pensamento cibernético que foi propulsor dos primeiros estudos sobre sistemas humanos e terapia familiar. A essa concepção, o foco está nos sistemas biológicos e fisiológico para a noção do si mesmo – relação entre mundo interno e externo – que, pode ser perigoso se respondermos a todos os fenômenos com uma causa, uma origem, uma essência que cristaliza outros atravessamentos sociais para além de sistemas rígidos e fechado. 

O texto aborda como ao longo dos últimos anos a noção de self passou a ser construída a partir de outras narrativas para além do cognitivismo. Do self narrador para um self que é co-construído na interação e relação com o outro na construção de significados mútuos. Para o diálogo em questão, o autor pontua que o movimento psicanalítico foi um dos propulsores a pensar o papel narrativo na psicoterapia. Para os psicanalistas Donald Spence (1978) e Roy Schafer (1984) quando há uma lacuna nas lembranças da infância, o papel do terapeuta seria a de construir uma história próxima ao que o paciente se recorda, uma vez que para esses autores, há algo na história do paciente que nunca poderemos acessar e construir uma narrativa que seja próxima ao que está sendo narrado poderia ser não um retorno arqueológico, mas um desenvolvimento narrativo. Já para Schafer, o self vai além do conteúdo da narração construída, ele é fruto das histórias que nos contamos e contamos aos outros, em que cada vez contada, se contagia com outras narrativas, memórias e na própria interação de que ouve o que está sendo dito. Desta maneira, há sempre uma relação, uma interação que cria e produz narrativas vivas, caminhantes, contínuas, situadas e localizadas.

Dito isto, podemos pensar o si mesmo como um processo em graus de abertura que, na sua transformação, modifica a paisagem. Isso traz o caráter de mudança e de agência, de que somos capazes de intervir em nossa realidade. O papel do terapeuta seria o de uma espécie de editor que colabora com o paciente na forma de reescrever sua história. Para isso, a noção de eu, conforme apontou Emile Benveniste (1971), aponta o pronome pessoal como indissociável do sujeito que conta sua história. O eu, neste caso, não se trata de uma identidade fixa, mas cambiante ao longo da maneira que contamos nossas histórias. Assim, essa noção de eu também cria nossas identidades, ainda que temporária, uma vez que somos uma linha de acontecimento. Desta maneira, o self é uma construção, um devir que se faz na linguagem e narração.

Tais processos na terapia narrativa do self é importante para nos afastarmos de uma visão fixa e encapsulada para sistemas intersubjetivos e fluidos na construção de significados, sendo a terapia narrativa um processo conversacional. Ao terapeuta, alguns cuidados precisam ser tomados quando se está em uma conversação. A primeira delas é não se projetar no que o consultante traz de si. Mais que uma edição do terapeuta sobre o que está sendo narrado, é a própria conversação enquanto espaço para que o consultante possa se ouvir e criar novas estratégias de lidar com suas questões, antes não pensadas por diferentes lugares. O terapeuta seria uma espécie de condutor, alguém que se guia nas pistas dadas, mas o caminho é de quem vive e narra a experiência. Para isso, boas perguntas precisam estar em cena, como uma espécie de curiosidade que parte de um não saber.     

Para concluir, narrativa e self são indissociáveis quando pensamos que somos co-criadores de nós e da nossa relação com o outro. É nessa interação que criamos a noção de certa identidade, que embora não seja fixa, pois performatizamos parte de quem somos em diferentes espaços, isso nos dá a possibilidade de que a noção de self é dinâmica e multifacetada quando pensamos na construção de si. As pessoas são agentes de si e criadores de significados e interpretação de seu próprio self. Dito isto, o terapeuta nunca pode dizer que conhece verdadeiramente a intenção ou ação do consultante, tampouco prever comportamentos futuros, tudo que sabemos a seu respeito será diante de boas perguntas, sempre em uma posição de não saber. Uma vez que os significados estão sempre em processo, nunca é alcançado por completo. Assim, o processo terapêutico é uma conversação processual, localizada e situada em determinado contexto.   

                  

Referência

Goolishian, Harold – Narrativa e Self: alguns dilemas pós-modernos da psicoterapia. In: Shinitman, (org) Novos Paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre: Artmed, P. 191-199, 1996.

 

SH McDanial e Kenneth J. Gergen. (1993). “Harold A. Goolishian (1924–1991): Obituário”. Psicólogo Americano. Volume 48, Edição 3. 292-292. DOI: 10.1037/0003-066X.48.3.292

https://works.swarthmore.edu/fac-psychology/436

 

Vanessa Pereira de Lima

Aluna colaboradora da 4ª turma do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea

Psicóloga Social

Doutora em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Subjetividades e Instituições em Dobras (GEPSID/UERJ)