Baseado no texto “Narrativa e Self: Alguns Dilemas Pós-modernos da Psicoterapia” de Harold A. Goolishian e Harlene Anderson (2004)
Por Letícia Rodrigues
A pergunta “o que é o self?” remonta um dos principais questionamentos da Psicologia, e sua resposta dependerá da base teórica utilizada a priori. Assim sendo, se pensarmos nessa pergunta a partir das ciências cognitivas e modernas, as respostas irão girar em torno da ideia da busca de uma essência desse self, que procura encontrar os fenômenos psíquicos ou fisiológicos que expliquem a existência dessa estrutura.
Goolishian e Anderson (2004) vão propor para refletirmos essa mesma pergunta a partir de outro ângulo e adentrar no campo das teorias pós-modernas. Dentro desse novo lugar, abrimos espaço para investigar o self como um narrador de histórias, que produz significado e sentido a partir da linguagem.
A terapia, numa concepção pós-moderna e que entende o self como narrador, passa a ser uma atividade de contar histórias, uma atividade que transforma, muda e desenvolve nosso self continuamente, criando espaço para entender as experiências passadas desse narrador, dar sentido a elas e tornar a mudança “narrativamente concebível, alcançável e acreditável” (Goolishian & Anderson, 2004, p.194). O papel do terapeuta é auxiliar o cliente nessa construção, dando continuidade, sentido e coerência para essas histórias, uma tarefa que produz um senso de identidade e self.
O terapeuta não deve projetar suas ideias e teorias em cima da narração do cliente, mas, através de perguntas e numa postura de não-saber, auxilia a construir novas possibilidades de ser e estar no mundo, e tenta conhecer e explorar a subjetividade narrada. Goolishian e Anderson (2004) resumem muito bem essa postura no seguinte trecho: “se perguntarmos da perspectiva de um saber prévio, ou seja, da perspectiva de nossas teorias ou nossa própria compreensão, tudo o que aprenderemos serão nossas próprias narrativas” (p.196).
A intenção da terapia não é confirmarmos o que nós, terapeutas, hipotetizamos sobre cada caso atendido. Também não é sobre trazer para nossa linguagem teórica as inquietudes dos clientes; mas é compreender o sentido e a intenção das ações desses sujeitos, encontrar significados que sejam libertadores para eles próprios e confiar que a forma como eles nos contam suas histórias é a realidade em que vivem (e como a vivem ou experienciam). Nossas perguntas sempre devem abrir espaço para novas compreensões. As respostas sempre nos conduzem a outras novas perguntas, e entramos numa circularidade em que os sentidos e significados se mantém abertos e infinitos.
O construcionismo social, como o próprio nome diz, nos relembra que somos constantemente construídos e transformados socialmente. A terapia, nessa perspectiva, se torna um local em que se abre a possibilidade dessas transformações acontecerem, principalmente devido ao envolvimento de um especialista em conversações, facilitador na contação de histórias e construção de sentidos estar presente – o terapeuta.
GOOLISHIAN, Harold A.; ANDERSON, Harlene. Narrativa e Self: alguns dilemas pós-modernos da psicoterapia. In: SCHNITMAN, Dora Fried (org.). Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade. Porto Alegre: Artmed, 2004. p. 191-199.
Letícia Oliveira Rodrigues
Aluna Colaboradora da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea – Psicóloga clínica há 7 anos, formada pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia), possui Certificado Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas, e formações de base teórica pós-moderna e construcionista social.
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