Texto baseado no capítulo“Indivíduo, Identidade e Self”, de Rosana Rapizo (2013), em sua tese de doutorado “Entre laços e nós”.
Por Arthur Alves de Oliveira Silva
A psicóloga Rosana Lazaro Rapizo apresentou, em 2013, sua tese de doutorado intitulada “Entre laços e nós, perdas e ganhos: um espaço de conversas sobre divórcio”, que versa sobre o atendimento de sensibilidade construcionista social voltado para mães, pais e filhos que passaram pelo processo de divórcio. Apesar desse enfoque no corpo principal do trabalho em questão, a autora apresenta um panorama inicial das transformações da pós-modernidade, apresentando alguns dos seus dilemas e desafios.
A tese é dividida em 8 capítulos, em um formato de funil indo do mais geral para o mais específico, assim como apresentando uma metodologia de trabalho com essas famílias. Neste texto, gostaria de apresentar um dos pontos que mais me chamou atenção na seção “O indivíduo: centro organizador da vida social”. Trata-se da questão da identidade na era pós-moderna. Diferentemente da época moderna, em que determinados protocolos sociais, papéis e orientadores macrossociais localizavam o indivíduo na sociedade, num grau de estabilidade mais ou menos regular, na contemporaneidade este se vê levado a construir a própria identidade, de forma mais autônoma e menos protocolar.
Se antes, na modernidade, a identidade era algo estável, regular, coerente, fixa e dada antes do sujeito (por exemplo, as noções de masculinidade, parentalidade, orientação sexual ou racialidade), hoje nos deparamos com uma maior flexibilidade para dar nome a nós mesmos. Testemunhamos uma miríade de possibilidades existenciais, agora não mais presas e fixas a algo predeterminado. Muito pelo contrário: no individualismo contemporâneo não se valoriza mais a construção da identidade, mas o fato desta não se fixar em algo estável, podendo ser adaptável, maleável e flexível, variada de acordo com o contexto, o tempo e as vontades do sujeito.
Esse sentimento moderno de haver uma identidade unificada, estável, segura, coerente e contínua, é uma fantasia e também uma ficção. Prezar pela narrativa do eu em toda a sua coerência não abria espaços para olharmos para as fragmentações, descontinuidades, bifurcações e contradições, características da condição humana. Apesar de agora haver maior liberdade criativa para falar sobre si, ainda há algumas complexidades envolvidas. Primeiramente, o mundo não é apenas contemporâneo: ele é habitado, por exemplo, por políticas modernas e ideologias de fixações identitárias. Concomitantemente a liberdade, há também a nostalgia moderna de uma estabilidade. Isso pode produzir ruídos, rachaduras e conflitos em diversos âmbitos, tanto individuais quanto políticos.
Em segundo lugar, a fragmentação das identidades também pode ser muito angustiante. Não saber quem se é com certa segurança e estabilidade produz muitas vezes uma sensação de desamparo que requer atenção e cuidado. Uma auto identidade frágil diante das transformações intensas e extensas da modernidade tardia pode produzir ansiedades e medos diante do inseguro e imprevisível.
Olhar para esses aspectos existencialistas da experiência humana é fundamental para que possamos conduzir atendimentos psicoterapêuticos, visto que a condição humana é precisamente não ter um script dado de antemão, como no reino animal poderíamos pensar em instinto. Para terapeutas de orientação construcionista social, as identidades são negociadas no caso a caso, num tempo e num contexto específicos, e isso também pode produzir momentos de contradições e inconsistências. Longe de ser algo negativo, essas incoerências denunciam a riqueza da possibilidade humana na existência! Como podemos, em nossa prática clínica, abrir espaço para o inconsistente e o inesperado, de forma acolhedora e criativa?
Referência:
RAPIZO, Rosana Lazaro. Entre laços e nós, perdas e ganhos: um espaço de conversas sobre divórcio. 2013. 361 f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.
Arthur Alves de Oliveira Silva
Aluno(a) Colaborador da Turma 2024 do Curso de Formação em Terapia Familiar Sistêmica Contemporânea
Psicólogo formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) desde 2023, com ênfase em Psicologia Clínica e Social
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