A seguinte resenha possui como objetivo apresentar a discussão feita pelo psiquiatra norueguês Tom Andersen no livro “A terapia como construção social” (2020), no capítulo Reflexões sobre a reflexão com as famílias (p. 92-109).
No capítulo em questão, o autor fala sobre a sua trajetória profissional e suas diferentes formas de descrever e compreender o mundo a partir do “momento da vida em que toma parte” (p. 93). Andersen conta como começou a questionar a sua perspectiva de cuidado em saúde e refletir sobre alternativas ao tratamento-padrão utilizado, indagando se não seriam mais eficientes técnicas que fossem coerentes com o contexto de cada pessoa. Ao buscar tais alternativas, encontra os trabalhos de autores como Salvador Minuchin, Gregory Bateson e os terapeutas da abordagem de Milão. A partir dessas e mais algumas pessoas autoras, Andersen inicia seu trabalho com famílias e questionamentos sobre quais métodos se adequam mais à sua perspectiva de processo terapêutico.
Entre 1984 e 1985, Andersen e alguns colegas fazem experimentações com a abordagem de Milão, buscando formas de conduzir o processo terapêutico onde as intervenções da equipe seriam uma contribuição a mais ao que a família já percebia sobre a sua própria dinâmica. Em Março de 1985, ao permitir que uma família escutasse as deliberações feitas pelos profissionais sobre a sessão em andamento, Andersen viu que não só a linguagem utilizada pela equipe fazia sentido para a discussão da família, como também suas apreensões sobre a possibilidade de um falar mais técnico ser danoso para o processo terapêutico, foram embora. A partir desse dia, a equipe é batizada de “Equipe Reflexiva”.
O autor então constroi uma prática com famílias a partir da utilização dessa Equipe Reflexiva como recurso terapêutico, onde as contribuições dos profissionais são discutidas em sessão com as pessoas integrantes e a linguagem passa por constantes modificações e questionamentos de uso, modificando a perspectiva do trabalho reflexivo. O autor compreende que as famílias em sessão, as pessoas ouvintes, não são meros receptores de uma (a sua própria) história, mas sim estímulos “ao ato de produção da história” (p. 109).
Andersen foi uma importante referência para o desenvolvimento da prática em terapia de família, a partir de suas contribuições sobre os processos reflexivos no trabalho terapêutico. De acordo com Grandesso (2011), o uso das equipes observadoras para o trabalho terapêutico é um recurso que compõe a terapia sistêmica de família desde o seu início. Porém, mesmo que “o uso de reflexões das equipes de observadores, como recursos para a terapia sistêmica, remonte aos primórdios da década de 50, seu uso, enquanto uma prática pós-moderna, é credenciado a Tom Andersen” (Grandesso, p.277).
O autor nos apresenta uma abordagem contextualizada na realidade das pessoas com quais as sessões de terapia são realizadas, possibilitando um trabalho em que o processo terapêutico se torna então um “ato de constituir a si mesmo” (Andersen, p. 109).
Referências
Atendimento